QUANDO A MÚSICA ME FAZ RECORDAR QUEM FUI
“Por que “Liebesträume” fere e cura ao mesmo tempo?”
Enquanto numa tarde de domingo eu buscava por algo interessante para ver na TV, deparei-me com a cena de um filme em que um casal estava num restaurante sofisticado: e a música ambiente era Sonho de Amor, de Liszt.
Imediatamente busquei no Youtube a magistral interpretação, ao piano, de Arthur Moreira Lima.
Há músicas que não tocam apenas o ouvido — tocam o tempo.
E quando Sonho de Amor, de Liszt, ecoa no piano sensível de Arthur Moreira Lima, sinto que ela abre uma porta para um território que já não habito há muitos anos: a província distante e intensa da minha juventude, quando conheci essa obra prima de Liszt.
Antes dos vinte anos, eu era feito de uma matéria bruta que ardia.
Havia em mim um mundo de sentimentos desordenados, como se minha alma fosse sempre um pouco maior do que o corpo que a carregava.
Sentia tudo em excesso: a beleza me feria, a saudade me consumia, o futuro me assustava, e o amor — esse amor que eu ainda não conhecia — me parecia sempre uma promessa inalcançável.
Vivia então acompanhado de uma angústia silenciosa: uma inquietação profunda, quase existencial, daquelas que visitam apenas os jovens que pressentem que a vida é muito maior do que conseguem abraçar.
Nada era leve; tudo tinha o peso de eternidade.
Eu caminhava com uma espécie de nostalgia precoce, como se já me despedisse das coisas antes mesmo de vivê-las.
E é exatamente esse jovem — esse eu de sombras, dúvidas e sonhos — que a música de Liszt convoca quando começa a soar.
Ela me devolve a sensação de que o mundo era vasto demais, imprevisível demais, perigoso demais para um coração sensível.
De que eu carregava dentro de mim uma fome imensa de sentido, de beleza, de amor — e ao mesmo tempo o medo de nunca encontrar nada disso.
Liszt compôs essa peça como uma meditação sobre o amor, mas não o amor juvenil ou eufórico.
Trata-se do amor maduro, misturado à saudade, memória, perda e transcendência.
A linha melódica parece nunca “pisar no chão”. Ela sobe, hesita, se inclina, volta — como se fosse um suspiro prolongado. Isso provoca em quem ouve uma sensação inconsciente de anseio (em alemão, Sehnsucht).
Liszt usa acordes que “pedem resolução”, mas retardam essa resolução.
Esse atraso cria a sensação de: “estou quase chegando… mas ainda não” ou “quero algo que está perto, mas não alcanço”
É a própria metáfora da vida adulta, especialmente para alguém reflexivo como eu.
Quando a peça atinge seu ápice, ela explode em beleza — e logo depois recolhe-se num murmúrio triste. Isso reproduz o movimento emocional humano: pico, memória, silêncio, aceitação.
Arthur Moreira Lima toca Liszt com um traço muito raro:ele humaniza o virtuosismo.
Enquanto muitos pianistas fazem da peça um espetáculo, Arthur transforma em confissão íntima. Ele usa rubatos delicados — lembrei-me de Chico Buarque e sua Aurora — e um toque que parece trazer uma história de vida dentro de cada nota.
Quem o escuta capta não apenas a música, mas a vivência.
Em pessoas sensíveis, maduras, com vasto repertório afetivo — como, penso eu, é o meu caso — isso aciona memórias profundas, às vezes silenciosas há anos.
Sinto uma angústia e vontade de chorar porque a música toca justamente nas áreas onde minha alma guarda o que um dia virou palavras colocadas em meus poemas, escritos na adolescência, sobre sonhos que um dia foram tão vivos.
Muitos estudiosos chamam isso de tristeza luminosa — uma emoção que dói e consola ao mesmo tempo.
Mas então, no grande concerto da minha existência, aconteceu o improvável:
me veio a Lu. E com ela a minha Luz.
Com ela, todos aqueles sentimentos tortos da juventude começaram a se ajeitar.
O que antes era angústia tornou-se entendimento.O que antes era vazio transformou-se em presença. O que antes era busca incessante tornou-se encontro.
Ela não apagou o jovem que fui — ela o acolheu, o acalmou, o transformou.
Ao seu lado, descobri que o amor não é um delírio ou uma vertigem, mas uma casa: e ao entrar nessa casa, finalmente encontrei paz.
Por isso, quando hoje ouço Sonho de Amor, não choro mais pela dor de um passado que me esmagava — mas pelo milagre silencioso que foi atravessar tudo aquilo e chegar à luz que me esperava.
A música me revela, sim, mas me revela inteiro: o jovem que fui,o homem que me tornei,e a luz que me guiou até aqui.
Cada nota me diz — com delicadeza, com verdade e com amor — que tudo, absolutamente tudo, valeu a pena.
Porque no fim desse caminho de sombras, havia alguém segurando uma chama: era ela, era a minha Lu, era a minha Luz.
Hoje, septuagenário, vivendo profundamente a vida, as memórias de família, de minha trajetória educacional, do meu filho Rodrigo, da minha filha Giovana de tantas páginas escritas, tudo isso vibra de modo mais sensível: e me revela com delicadeza, com verdade… e com amor.
A peça de Liszt não fala de morte, mas fala de eternidade — e esse encontro entre o finito e o infinito provoca angústia doce, lágrima silenciosa.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
COMENTÁRIOS SOBRE O ARTIGO ACIMA:
Acabei de ler seu texto divino de amor à sua Lu. Fiquei emocionada. Até acelerou o coração. Quem não quer ser amada assim. Vocês são amores divino e infinito . Raro hoje em dia . Já sabia deste amor. Vou relaxar e dormir. Desejando a você e Lu muita Luz e a paz de Jesus. Amém
LUZIA MADALENA GRANATO – Escritora e amiga
Ahhhh, que lindo!!!
Que confesso e sem medos da exposição…
Amigo não conseguiria entrar numa aula de piano?
Precocemente minha mãe apresentou ao instrumento de cordas… sim… clássico e concomitantemente o popular ( lembra do João Viviani? Fui a 1ª aula particular do “ Vivi” e segui até ele partir…).
Quando partiu… algo aconteceu dentro de mim… fiquei uns anos sem abrir o instrumento… depois retornei e continuo…
A música salva…
Pense na possibilidade de tocar um instrumento!
RENATA SBORGIA – Escritora e amiga
Parabéns meu caro amigo Antônio Carlos, muito bom esse texto, você conseguiu me tocar, revivi momentos do passado, e me fez refletir o meu presente.
CLAUDIO AQUINO – uma amigo de mídia social
