EU E EU NUM CAFÉ DA MANHÃ
“O inimaginável há tempos atrás, aconteceu: Eu e Eu num café da manhã depois de 76 anos”.
Há imagens que apenas registram um instante.
Outras, porém, criam um tempo novo.
A imagem que vejo diante de mim pertence à segunda categoria. Nela estou sentado à mesa de um café da manhã …comigo mesmo.
Ao meu lado está o menino que fui. Pequeno, curioso, ainda com a vida inteira pela frente. Ao lado dele, estou eu hoje, após 76 anos de travessia.
A fotografia foi criada por um grande amigo, Josiel, companheiro na nossa querida Confraria do Bigode.
Uma ideia simples e, ao mesmo tempo, profundamente terna e genial: colocar lado a lado duas versões da mesma pessoa separadas por décadas — o menino que começou a caminhada e o homem que ainda continua caminhando.
Sobre a mesa, duas xícaras de café e um croissant. Um cenário cotidiano, quase banal. Mas o que acontece ali é extraordinário: um encontro impossível, um diálogo silencioso entre dois tempos.
É como se a inteligência artificial tivesse realizado um parto imaginário. A criança que sempre existiu dentro de mim foi retirada por alguns instantes do interior da memória e colocada fora de mim, sentada ao meu lado.
Posso olhar nos seus olhos. Posso imaginar sua voz. Posso quase ouvi-lo perguntar sobre o futuro.
E então começo a pensar: quantas coisas já vivemos juntos?
Porque, de certa forma, sempre estivemos juntos.
Cada descoberta da infância, cada sonho adolescente, cada esperança da juventude, cada luta da vida adulta — tudo isso foi vivido por nós dois. Pelas mesmas mãos, pelos mesmos olhos, pelo mesmo coração em diferentes tempos.
O curioso é perceber que os fatos foram os mesmos, mas as visões nem sempre. O menino via o mundo com espanto. O adulto, muitas vezes, com preocupação. O menino acreditava que tudo era possível. O adulto aprendeu que nem tudo é simples — mas que ainda assim vale a pena tentar.
Sentados naquela mesa imaginária, somos dois observadores da mesma história.
O menino talvez queira saber se seus sonhos sobreviveram.
O adulto talvez queira agradecer ao menino por ter sonhado tanto.
Há algo de profundamente humano nessa imagem. Ela revela que o tempo não apaga completamente aquilo que fomos. Em muitos momentos da vida, quando sorrimos diante de uma descoberta, quando nos emocionamos com algo simples, quando nos maravilhamos com uma ideia nova, é aquela criança que reaparece.
Ela nunca foi embora.
A inteligência artificial tornou possível essa cena que antes só existiria na imaginação. Mas o sentimento que ela desperta é antigo, profundamente humano: o desejo de reconhecer em nós mesmos todas as idades que já fomos.
Olho novamente para a fotografia.
Ali estamos nós dois: o menino e o homem, o começo e o caminho, o sonho e a memória.
Eu e eu.
E naquele café da manhã impossível, percebo algo reconfortante:
depois de 76 anos, continuamos conversando.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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