ARTIGO: JULGAMENTO 

 

JULGAMENTO 

“Minhas provas estão com o Olho Que Tudo Vê”.

De repente, encontro-me diante de um juiz num tribunal.

Não há portas que se abriram, nem passos que me trouxeram até ali. Apenas estou.

Estou no outono de minha vida — estação em que as folhas já não nascem, mas caem, silenciosas, como memórias que se desprendem do tempo. Há uma serenidade estranha nesse momento, mas também uma presença: a da consciência.

O juiz me observa. Seu olhar não é duro, tampouco benevolente. É um olhar que atravessa.

— Por que está aqui? — pergunta.

E eu respondo, com honestidade que me surpreende: — Não sei.

Talvez porque, no fundo, ninguém saiba exatamente por que é chamado a certos julgamentos. Há convocações que não vêm do mundo, mas de dentro — de um lugar onde não se pode mentir.

Ele prossegue: o senhor tem testemunhas?

E então algo se ilumina em mim. Não como uma defesa ensaiada, mas como uma verdade que se impõe, então respondo:

— Minhas testemunhas são os milhares de jovens que passaram por mim como educandos. Cinquenta anos de magistério falam por mim.

Nesse instante, o tribunal parece se ampliar. Como se aquelas paredes invisíveis fossem atravessadas por vozes, rostos, histórias. Alunos atentos, alunos dispersos, alunos perdidos e reencontrados. Olhares que buscaram direção. Mentes que despertaram — ou não.

Porque ensinar nunca é um ato de controle absoluto. É uma semeadura. E toda semeadura depende de um solo que não nos pertence.

O juiz inclina-se ligeiramente.

— E provas? Tem provas do que vai dizer?

Agora, o silêncio pesa mais. Porque provas… provas são coisas do mundo concreto. Documentos. Certidões. Registros. Mas há uma vida inteira que escapa a papéis.

Respondo, então:

— Minhas provas estão com o Olho Que Tudo Vê.

Não é desafio. Não é fuga. É reconhecimento. Há coisas que não podem ser medidas, mas são profundamente reais. O bem que fiz — ou deixei de fazer. A palavra que salvou — ou feriu. O gesto que orientou — ou desviou.

O juiz não reage com surpresa. Apenas encerra:

— Está bem.

E o julgamento termina.

Sem sentença. Sem absolvição. Sem condenação.

Acordo do pesadelo, e fico sem saber bem o que fazia naquele tribunal surreal.

Mas talvez — apenas talvez — o julgamento não fosse sobre leis, nem sobre culpas evidentes. Talvez fosse sobre aquilo que não se vê: a coerência entre o que fomos e o que acreditamos ter sido.

O outono da vida não é apenas um tempo de despedidas. É também um tempo de balanço. Um tempo em que já não perguntamos ao mundo quem somos, mas a nós mesmos.

E, no silêncio que segue ao sonho, compreendo algo essencial: há tribunais que não existem fora de nós. Há juízes que não usam toga. E há testemunhas que não precisam falar — porque vivem.

E, no fim, talvez o único veredito possível seja este: continuar existindo com dignidade suficiente para não temer o próximo julgamento.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

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