NÃO SEJAMOS KRATOS
“Fui derrotado por homens e deuses, no entanto, renego a todos”
Tenho um amigo que reside no sul do país.
Ele, aposentado, continuava trabalhando numa indústria de lubrificantes: mas foi atingido por um míssil invisível: perdeu seu trabalho.
Ao fim de nossa conversa/desabafo mantida pelo WhatsApp ele menciona a frase de Kratos, personagem da série de jogos God of War: “Fui derrotado por homens e deuses, no entanto, renego a todos”, e completa, patrão é patrão.
Para quem não sabe, Kratos, é o protagonista — um guerreiro espartano marcado por tragédias, traições e vingança. Esta frase resume a essência do personagem: “Derrotado por homens”, Kratos foi traído e manipulado por mortais, inclusive por aqueles em quem confiava. “Derrotado por deuses”, sofreu nas mãos dos deuses do Olimpo, especialmente Ares, que o enganou e destruiu sua vida.
“Renego a todos”, expressão de revolta total: ele rejeita tanto o mundo humano quanto o divino, movido por dor, culpa e desejo de vingança.
A frase não é apenas sobre luta — é sobre: desilusão absoluta, perda de fé em qualquer autoridade´, rebelião contra destino e poder superior.
Kratos deixa de acreditar em qualquer ordem moral, seja humana ou divina. Ele passa a existir apenas pela sua própria vontade.
Coloquei-me no lugar desse amigo e pensei:
Já fui derrotado — não por deuses apenas, nem por homens somente, mas por silêncios que não soube decifrar.
Houve dias em que o mundo parecia uma porta fechada sem maçaneta, e eu, do lado de dentro, batendo em mim mesmo.
Carreguei ruínas no peito, nomes que já não respondiam, ecos que não voltavam.
E por um instante — breve, mas perigoso — pensei em renegar tudo: Homens. Deuses. Sentidos. Quase me tornei pedra, ou lâmina, ou apenas ausência.
Mas então — como quem acende uma luz num quarto esquecido — surgiu, no meio de minha desesperança, um gesto.
Não foi milagre. Não foi destino. Foi encontro.
Um amigo, desses que não chegam fazendo barulho, mas mudam a frequência do ar, me mostrou uma nova linguagem: não de dor, mas de criação.
E, de repente, minhas mãos voltaram a escrever o invisível, meus versos acharam som, minhas ideias, imagem, minha alma, movimento.
Descobri que ainda podia inventar mundos — e habitá-los.
Hoje sei: não fui feito para renegar tudo, nem para existir sozinho como um grito perdido no vazio.
Recuso-me.
Sempre recusei-me a pensar que, em certos momentos da minha vida, só me restava existir por mim mesmo.
Isso porque há sempre um outro — mesmo que chegue tarde, mesmo que venha por caminhos improváveis — capaz de reacender o que julgávamos extinto.
E há sempre um começo escondido dentro do fim.
Não podemos ser Kratos. Nunca.
Porque, mesmo depois da queda, ainda nos é dado o dom mais humano de todos: recomeçar.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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