ARTIGO: QUANDO PROTESTAR NÃO BASTA – 7 DE SETEMBRO DE 2026

QUANDO PROTESTAR NÃO BASTA

“Recebi um convite para participar amanhã, sete de setembro de 2026, segunda-feira, de um movimento de volta às ruas em uma manifestação pacífica e ordeira, a partir das 9 horas, na Avenida Nove de Julho, em frente à RECRA”

Então passei a refletir.

A História está repleta de multidões: já participei de um desses movimentos.

Na história mais recente da humanidade, pessoas caminharam por avenidas, ocuparam praças, carregaram cartazes, entoaram palavras de ordem e fizeram ouvir sua indignação. Algumas dessas manifestações desapareceram no dia seguinte. Outras, porém, modificaram governos, leis e até regimes políticos.

Por quê?

Talvez porque exista uma diferença fundamental entre manifestar descontentamento e transformá-lo em pressão política persistente.

Uma manifestação pacífica e ordeira é uma das expressões mais legítimas da cidadania. Milhares de pessoas reunidas podem demonstrar que determinada insatisfação deixou de ser individual e se tornou coletiva. Entretanto, uma multidão pode ocupar uma avenida durante algumas horas, voltar para casa e, no dia seguinte, descobrir que aqueles a quem dirigia sua indignação simplesmente continuaram fazendo exatamente o que faziam antes.

E isso é terrivelmente frustrante.

Nesse caso, a manifestação mostrou força numérica, mas não necessariamente alterou a relação de forças.

A História oferece exemplos diferentes.

Na Índia, a Marcha do Sal não se limitou a reunir pessoas contra o domínio britânico. Gandhi e seus seguidores desobedeceram deliberadamente ao monopólio colonial do sal. A ação era pública, consciente e não violenta.

Nos Estados Unidos, parte fundamental do Movimento pelos Direitos Civis também ultrapassou a manifestação convencional. Houve boicotes e outras formas de não cooperação. Pessoas aceitavam inclusive a possibilidade de prisão para desafiar normas segregacionistas consideradas injustas.

Na Polônia, o Solidariedade utilizou greves e organização social independente para confrontar um sistema que restringia severamente a oposição.

Nas Filipinas, enormes multidões permaneceram nas ruas durante a crise que derrubou Ferdinand Marcos.

Na Tchecoslováquia, manifestações e greves contribuíram para a Revolução de Veludo.

E, na Alemanha Oriental de 1989, a crescente mobilização popular tornou cada vez mais difícil para o regime manter intacto seu sistema político.

Esses movimentos foram diferentes entre si e não devem ser artificialmente transformados numa única fórmula histórica. Entretanto, possuem algo que merece reflexão: em vários deles, a população deixou de apenas dizer “não concordamos” e passou, de maneira não violenta, a retirar alguma forma de cooperação do sistema contestado.

É aí que aparece uma das características fundamentais da resistência civil.

Todo poder político depende, em alguma medida, de cooperação.

Depende de pessoas que trabalhem, instituições que funcionem, ordens que sejam cumpridas, consumidores que consumam, funcionários que executem determinações e cidadãos que reconheçam normalmente a autoridade estabelecida.

Quando uma parcela significativa da sociedade retira pacificamente alguma dessas formas de cooperação, surge um custo que uma manifestação convencional nem sempre produz.

Uma passeata pode terminar. Uma greve prolonga-se. Um discurso pode ser ignorado. Um boicote pode produzir consequências econômicas. Uma concentração pode ser dispersada.

Mas milhões de pessoas recusando-se persistentemente a colaborar com determinada prática criam um problema político muito mais complexo.

Isso ajuda a compreender por que não violência não significa necessariamente passividade.

Gandhi talvez seja o exemplo histórico mais conhecido dessa diferença. Sua proposta não consistia em atacar fisicamente o adversário. Consistia em tornar determinada situação injusta cada vez mais difícil de sustentar sem recorrer à violência.

Martin Luther King Jr. percebeu mecanismo semelhante. A resistência não violenta procurava expor a injustiça, mobilizar consciências e criar uma tensão política que obrigasse instituições a enfrentar problemas que preferiam adiar.

Há, portanto, três conceitos que não deveriam ser confundidos:

paz, passividade e obediência.

É possível ser pacífico sem ser passivo.

É possível defender a não violência e, simultaneamente, recusar cooperação com aquilo que se considera injusto.

E é possível exercer pressão política intensa sem transformar o adversário em inimigo físico.

Naturalmente, existe um limite indispensável: numa democracia constitucional, resistência civil não pode ser confundida com licença para violência, intimidação, depredação ou ataque às pessoas. Também é preciso reconhecer que a desobediência deliberada à lei pode produzir consequências jurídicas para quem a pratica. A tradição clássica da desobediência civil, aliás, frequentemente pressupõe publicidade, não violência e disposição para responder juridicamente pelo ato praticado.

A questão central, portanto, não deveria ser: “Como tornar uma manifestação mais violenta?”

Essa pergunta conduz ao pior caminho.

A pergunta historicamente muito mais interessante é: “Como tornar uma mobilização pacífica politicamente impossível de ignorar?”

É aí que entram organização, continuidade, número, disciplina, comunicação, greves dentro dos limites aplicáveis, boicotes lícitos, pressão institucional, participação política e outras formas não violentas de ação coletiva.

Talvez essa seja uma das grandes lições deixadas pelos movimentos que analisei.

O poder de uma população não está apenas na quantidade de pessoas que consegue colocar na rua durante algumas horas. Está também na capacidade de permanecer mobilizada depois que a praça esvazia.

Governos podem suportar gritos. Podem esperar uma passeata terminar. Podem apostar no cansaço dos manifestantes.

Muito mais difícil é ignorar uma sociedade organizada, persistente, numerosa e pacífica, capaz de transformar indignação momentânea em participação cívica continuada.

Por isso, quando uma manifestação ordeira parece não produzir resultados imediatos, talvez o problema não esteja em ela ter sido pacífica e democrática.

Pode estar em ter sido apenas episódica.

A História demonstra que algumas das mais poderosas mobilizações populares não precisaram abandonar a paz para aumentar extraordinariamente sua força: precisaram abandonar a passividade.

E essa diferença — entre violência e resistência, entre protestar e perseverar, entre estar na rua e permanecer mobilizado — continua sendo uma das questões fundamentais de qualquer democracia.

Infelizmente, há ainda uma dificuldade que precisamos reconhecer em nossa própria cultura política: o brasileiro demonstra enorme capacidade de indignação e mobilização, mas frequentemente encontra dificuldade para transformar essa energia em perseverança cívica organizada.

Queremos resultados rápidos. Queremos que a manifestação de hoje produza a mudança amanhã. E, quando ela não acontece, vem a frustração; depois, o desânimo; finalmente, a dispersão. A multidão que impressionou num domingo pode desaparecer politicamente na segunda-feira.

 

É justamente aí que os exemplos históricos que examinei neste artigo têm algo a nos ensinar. Gandhi não venceu caminhando durante um único dia. O movimento pelos Direitos Civis norte-americano não transformou seu país com uma única marcha. O Solidariedade polonês atravessou anos de perseguição. Os movimentos de 1989 tampouco nasceram e triunfaram numa única tarde. Mobilização histórica exige continuidade.

Por isso, mesmo que milhões de brasileiros ocupem as ruas neste 7 de setembro de 2026, sua presença, por si só, não garantirá consequência política alguma.

Se tudo terminar quando as pessoas dobrarem suas bandeiras, guardarem suas faixas e voltarem para casa, poderemos ter produzido uma extraordinária fotografia para colocar no Facebook ou Instagram— mas não necessariamente uma transformação.

O verdadeiro teste começará no dia seguinte.

Será preciso saber transformar manifestação em participação; indignação em organização; quantidade em continuidade; entusiasmo em perseverança. E, sempre dentro da não violência e dos limites do Estado Democrático de Direito, utilizar os instrumentos legítimos de pressão política e participação cidadã disponíveis à sociedade.

Porque talvez seja esta a lição mais incômoda da História: colocar milhões nas ruas durante algumas horas é uma demonstração de força. Manter milhões de cidadãos democraticamente mobilizados durante semanas, meses ou anos é exercício de força política.

Sem continuidade, o 7 de setembro de 2026 poderá ser apenas mais uma grande manifestação.

Com perseverança cívica, poderá significar algo muito maior.

A História não será escrita apenas pelo número dos que estiverem nas ruas.

Será escrita pelo número dos que, pacificamente, continuarem cidadãos no dia 8 de setembro.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Rieirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA, QUEM SOU

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