O ESPELHO QUEBRADO DAS APARÊNCIAS
Agora, vivendo minha aposentadoria, pela terceira vez em minha vida volto a refletir sobre o conto O Espelho, de Machado de Assis. E talvez seja justamente isso o mais inquietante: perceber que certas obras não apenas nos acompanham, mas retornam quando a própria vida decide repetir uma lição ainda não completamente assimilada.
Nas três ocasiões em que o conto voltou a me visitar, algo semelhante acontecia: eu havia perdido um lugar socialmente reconhecido. Não perdi apenas um cargo. Perdi a moldura visível que a sociedade utiliza para definir quem somos. E, junto dela, desapareceram pessoas que eu imaginava amigas.
Machado de Assis foi cruelmente preciso ao criar a teoria das duas almas. A alma interior, silenciosa, íntima, verdadeira; e a alma exterior, dependente do olhar alheio, das honrarias, dos símbolos e das convenções sociais. No conto, Jacobina deixa de se reconhecer quando perde a farda de alferes. A roupa militar não era apenas um uniforme: era um espelho social. Sem ela, sua identidade parecia dissolver-se.
Comigo aconteceu algo semelhante.
Nas três vezes em que deixei de ocupar posições institucionalmente valorizadas, senti o estranho silêncio que nasce quando o poder simbólico desaparece. O telefone toca menos. Os convites diminuem. Certos cumprimentos tornam-se frios. Algumas pessoas passam por nós como se estivéssemos levemente transparentes ou com alguma doença contagiosa.
É doloroso descobrir que muitos não eram amigos da pessoa, mas do personagem social.
Enquanto o cargo/função existia, eu representava utilidade, influência, acesso, prestígio, prestabilidade. Eu era cercado não apenas por afetos, mas por interesses silenciosos disfarçados de cordialidade. E o mais perturbador é que isso raramente acontece de forma explícita. Ninguém anuncia sua retirada. As pessoas simplesmente evaporam.
Como fumaça. Como reflexos. Como imagens num espelho rachado.
Na primeira vez em que vivi isso, sofri profundamente. Havia indignação, revolta e um sentimento quase infantil de traição. Eu ainda acreditava que convivência longa significava amizade verdadeira. Demorei para compreender que muitas relações sobrevivem apenas enquanto alimentadas pelas estruturas externas de reconhecimento.
Na segunda vez, doeu menos, mas feriu mais fundo. Porque já não era ingenuidade; era confirmação.
Agora, nesta terceira reflexão sobre O Espelho, percebo algo ainda mais desconcertante: talvez a perda do status social seja uma das experiências mais reveladoras da vida humana. Ela funciona como um ácido filosófico que dissolve vernizes e expõe essências.
Quem permanece quando desaparecem os títulos?
Quem ainda nos olha da mesma maneira?
Quem continua nos ouvindo sem necessidade de favores, portas ou prestígios?
Poucos, muito poucos.
E talvez isso não seja apenas uma tragédia pessoal. Talvez seja uma característica estrutural das relações humanas dentro das instituições. As instituições criam hierarquias; as hierarquias criam aproximações interessadas; e o ser humano, frequentemente carente de pertencimento e ascensão, aproxima-se mais do símbolo do que da alma.
Machado sabia disso no século XIX.
E continua sabendo no século XXI.
Hoje compreendo que a pior perda não é a do cargo. Também não é a dos amigos circunstanciais. A pior perda acontece quando começamos a acreditar que somos apenas aquilo que o espelho social reflete.
Porque então passamos a depender desesperadamente da aprovação externa para continuar existindo emocionalmente.
Existe uma violência silenciosa em deixar de ser socialmente necessário.
Principalmente para quem dedicou décadas à educação, às relações humanas, ao trabalho institucional, ao aconselhamento, ao acolhimento de pessoas. Há uma sensação amarga de descarte. Como se uma engrenagem dissesse: “Enquanto servia, era importante; agora, tornou-se excedente.”
Mas talvez exista também uma libertação escondida nisso tudo.
Quando o espelho externo quebra, sobra apenas a pergunta essencial:
Quem sou eu sem as molduras? Sem o cargo? Sem a autoridade institucional? Sem os símbolos?
Talvez seja justamente aí que comece a verdade.
Uma verdade dura, áspera, desconfortável, mas profundamente humana.
Quando revisito Machado de Assis, percebo que o conto não fala apenas sobre vaidade. Fala sobre solidão. Sobre identidade. Sobre o terror humano de desaparecer aos olhos do mundo.
E fala, sobretudo, sobre a coragem necessária para continuar existindo mesmo quando os aplausos cessam.
Porque há uma dignidade rara em permanecer inteiro depois que os espelhos sociais deixam de refletir nosso rosto.
Há, porém, uma descoberta surpreendente em meio a essa travessia: nem todos desapareceram.
E isso modifica profundamente minha reflexão sobre o conto O Espelho.
Percebi que muitos — e importantes — amigos que mantenho através das mídias sociais continuam exatamente os mesmos. Não todos, evidentemente. Também ali existem superficialidades, vaidades e conveniências humanas. Mas muitos permaneceram. E permaneceram de uma forma quase comovente.
Parece que nada aconteceu.
Continuam escrevendo diariamente, perguntando como estou, enviando uma lembrança, um poema, uma notícia, uma palavra de carinho, uma preocupação sincera com minha saúde, minha vida e meus sentimentos. Continuam compartilhando alegrias simples, angústias comuns, pequenas vitórias cotidianas e inquietações humanas.
Esses não são amigos do que possuímos. Não são amigos dos cargos. Não são amigos das instituições. Não são amigos do prestígio temporário.
São amigos do que SOMOS.
Talvez porque, nas relações construídas ao longo do tempo nas conversas diárias, desapareçam muitos dos rituais artificiais da vida social tradicional. Nas mídias sociais, quando existe autenticidade, o que permanece não é a cadeira ocupada, mas a voz da pessoa. Não é a posição hierárquica, mas a essência humana que escreve, sente, sofre, sonha e partilha.
Ali, muitas vezes, ninguém precisa impressionar ninguém.
As pessoas se encontram em suas humanidades comuns.
Descobri que amizades verdadeiras podem nascer justamente dessa troca aparentemente simples e cotidiana: um “como você está?”, uma lembrança espontânea, um comentário afetuoso, uma preocupação silenciosa num dia difícil, uma presença constante sem necessidade de cerimônias.
Existe algo profundamente humano nisso.
Uma espécie de fidelidade afetiva construída não pelo poder, mas pela convivência emocional.
Não pela utilidade, mas pela identificação de valores.
Pessoas que compartilham sensibilidades semelhantes acabam criando pequenas comunidades invisíveis de afeto, respeito e acolhimento. E talvez isso seja uma das grandes surpresas deste tempo moderno: enquanto muitos relacionamentos presenciais sucumbem às estruturas sociais e institucionais, certas amizades virtuais tornam-se extraordinariamente reais: muito reais. Porque foram construídas sem os tapetes das formalidades sociais. Sem as paredes dos cargos. Sem as fardas do conto de Machado.
Apenas entre seres humanos.
Seres humanos frágeis, imperfeitos, cansados às vezes, esperançosos outras tantas, mas unidos por valores em comum e por uma troca diária de atenção, carinho e preocupação genuína.
Talvez Machado de Assis se surpreendesse com isso.
Ou talvez não.
Talvez ele apenas dissesse que, mesmo quando os espelhos sociais se quebram, ainda resta a possibilidade rara de alguém continuar olhando diretamente para nossa alma.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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