ARTIGO: O TEMPO NOS DERRETE

 “A Persistência da Memória” (The Persistence of Memory, 1931”

Olhando para o espelho do meu quarto, refleti.

Nos meus quase oitenta anos, percebo que as pessoas que me cercam — amigos, companheiros de jornada, cúmplices de risos e batalhas — parecem derreter lentamente, como os relógios moles do quadro A Persistência da Memória, de Salvador Dalí.

É como se o tempo, esse artista cruel e genial, derretesse não apenas as horas, mas também os rostos, as vozes e os gestos de quem já foi jovem, forte, corajoso e pleno de sonhos.

Sinto Cronos — o velho deus devorador de seus filhos — soprar frio sobre nós.

A cada amanhecer, ele suga um pouco da seiva que nos fazia viçosos, rouba o vigor dos músculos, o brilho dos olhos e o ímpeto das ideias. As mãos já não têm a mesma firmeza; as lembranças, às vezes, se dissolvem como névoa. É como se estivéssemos deixando a vida escorrer entre os dedos, grão a grão, segundo a segundo.

E me pergunto: o que restará de nós, quando o relógio se dobrar sobre o nada?

O que sobrará das honras conquistadas, das memórias partilhadas, das dores enfrentadas, das alegrias vividas?

Foram em vão as lutas, os debates, as causas, os amores?

Talvez não.

Porque, se o tempo nos desgasta, ele também revela o essencial. O que fomos — o que amamos, ensinamos, defendemos e semeamos — não se perde. Transforma-se. Permanece vibrando naqueles que tocamos com nossas palavras, com nossos exemplos, com nossos afetos.
As rugas, afinal, são apenas as marcas do caminho percorrido.

E há um pensamento que me visita com frequência:
Quando chegar o momento de me apresentar ao Criador, que Lhe direi? O que Lhe entregarei como retorno das duas  preciosas vidas que Ele me concedeu — a da existência física e a da alma imortal?

Talvez Lhe mostre as marcas do tempo, os afetos que plantei, as lágrimas que limpei, os jovens que ajudei a crescer, os filhos que guardei no coração. Talvez Lhe apresente o pouco que restou de mim e diga, com humildade:

“Aqui estou, Senhor. Eis o que sobrou do que  me deste: o corpo cansado, mas a alma viva.

A matéria se dissolveu, mas o espírito — esse, espero — ainda pulsa com a luz que Tu sopraste em mim.”

Sim, o tempo derrete. Mas a memória persiste.
E talvez seja isso o milagre maior da existência:
a certeza de que, mesmo quando tudo parece escorrer, algo em nós permanece intocado — o vestígio divino que nos faz eternos.

Em tempo: Dalí, no quadro mencionado, quis representar a relatividade do tempo e da realidade — e possivelmente, da vida  — inspirado pelas ideias de Albert Einstein e sua teoria da relatividade.
O relógio derretendo simboliza, para mim,  que o tempo é fluido, subjetivo e psicológico, não algo fixo e mecânico: assim como é nossa passageira existência.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

COMENTÁRIO(S) SOBRE O ARTIGO ACIMA:

 

Acabei de ler! Amei! Você não vai acreditar, mas ainda hoje, estive pensando, mais ou menos, sobre isso que você escreveu.  “O que sobrará das honras conquistadas, das memórias partilhadas, das dores enfrentadas, das alegrias vividas?” ACT –   Parabéns!

IRENE COIMBRA – colega de ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.

 

Texto lindo e, apesar do realismo, cheio de esperança em um futuro que, este sim  é  feito de outra matéria (sic), mais fluida, mais diáfana, mais sutil e mais divinizada. Sede perfeito como vosso Pai é perfeito,  nos ensina Mateus. É disso que se trata. Tfa.

WALDOMIRO PEIXOTO  –  colega de ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.

 

Belas reflexões, amigo, a vida é um mistério, mas Deus é pleno e verdadeiro.

Sigamos com fé e nosso Deus nos ensinará a atravessar os seus mistérios.

Só Ele tem o controle de tudo.

Valioso o seu texto.

RITA MORÃO – colega de ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.

 

Nenhuma luta, debate, causa e amor foi em vão mas, acredito que com o passar dos anos seremos esquecido quase que totalmente.

Parabéns pelas palavras.

WALBER TÓRTORO – meu caro primo.

 

 

 

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA, QUEM SOU