ARTIGO: O SISTEMA NERVOSO E A ALMA

 

SISTEMA NERVOSO E A ALMA

Onde moram as lembranças?

Os meus estudos na pós-graduação em psicopedagogia me fizeram pensar na complexidade do que denominamos memória.

E concluí:

Há lembranças que cabem num neurônio — e há lembranças que só cabem na eternidade.

As primeiras são elétricas, químicas: brilham e se apagam nas sinapses do cérebro como vaga-lumes do pensamento.
As outras, porém, vivem em outro território: o da alma.

No campo da biologia, o sistema nervoso é uma partitura viva.
Cada lembrança é uma nota gravada nas conexões que o tempo reforça ou apaga.
O hipocampo, o córtex, a amígdala — são escribas da matéria, registrando, em silêncio, os capítulos de nossa história sensível.
É ali que dormem os rostos, as vozes, os cheiros da infância.

Mas há memórias que o microscópio não alcança.
São aquelas que o coração reconhece antes que a mente recorde.
São lembranças que não moram em neurônios, mas no sentido das coisas.

Nesse Dia de Finados, em que escrevo esse texto, penso que, quando recordamos alguém que partiu, não o fazemos apenas com o cérebro — o fazemos com a alma.
É como se algo em nós permanecesse ligado àquilo que não se apaga, ao que o tempo não rouba.

O sistema nervoso guarda os fatos; a alma conserva o significado.
Um escreve a biografia da carne; o outro, o evangelho do espírito.

E talvez seja assim porque a memória, em sua essência mais pura, é o laço que une o finito ao eterno.

Quando o corpo se cala — pensei no Alzheimer — a alma continua lembrando,
e talvez seja nessa lembrança que reencontraremos tudo o que amamos.

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

 

 

 

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