AS TRANÇAS DE ARAM
“Tererê é uma trança decorada com fios coloridos, miçangas ou penas”
Conhecer ARAM, jovem africana trançando cabelos na Praia Grande, foi, para mim, encontrar mais que estética — foi tocar uma história milenar que atravessa continentes.
As tranças têm origem ancestral em diversas regiões da África. Muito antes de se tornarem tendência mundial, elas já eram símbolos de identidade, pertencimento, posição social, estado civil, religião e resistência cultural. Cada desenho no couro cabeludo podia contar uma história. Em períodos de escravidão, as tranças chegaram a servir como mapas simbólicos e estratégia de preservação cultural.
O tererê, por sua vez, é uma adaptação moderna e criativa. Consiste em adicionar fios coloridos, linhas, miçangas ou pequenas contas às tranças, trazendo um toque vibrante e personalizado. O nome popularizou-se no Brasil, especialmente nas praias, como sinônimo dessas extensões coloridas que dão movimento, juventude e alegria ao penteado.
As tranças têm significados que vão além da moda: expressão de identidade, conexão com raízes africanas, resistência cultural, estilo e afirmação pessoal, celebração da beleza natural.
Na Praia Grande, o tererê tornou-se símbolo do verão. Entre ondas, areia e vendedores ambulantes, surgem artistas como ARAM, que transformam fios em arte viva. Turistas e moradores sentam-se sob o sol para levar consigo não apenas um adorno, mas uma experiência.
Há algo poético nisso: quem tem cabelo, pode trançá-lo.
Quem tem sonhos, pode entrelaçá-los.
Assim como as tranças exigem paciência, intenção e direção, também os objetivos pedem foco. Cada fio cruzado é um gesto consciente. Cada cor acrescentada é uma escolha.
Na Praia Grande, o tererê é mais que moda:é encontro de culturas, é África e Brasil conversando ao vento do mar. É arte manual sob o céu aberto. É identidade que se move.
Eu, vendo ARAM trabalhando, pensei que trançar seja também metáfora de vida: quem não tem objetivo, não chega a lugar algum — mas quem tece seus próprios fios, constrói seu próprio caminho.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
