UMA GINÓIDE NO QUARTO 508
Durante quatro noites no Centro de Lazer dos Comerciários do Estado de São Paulo, vivi sob uma vigilância, constante, silenciosa e luminosa.
No alto do quarto, fixada no teto como uma general futurista em missão secreta, havia uma ginóide toda de branco. Elegante. Impecável. Asséptica. Em suas mãos invisíveis, uma pequena caixa branca — provavelmente o cérebro eletrônico do universo… ou, no mínimo, do corredor.
À noite, quando as luzes se apagavam e o silêncio tomava posse do quarto, ela despertava.
Piscava.
Piscava.
Piscava sem parar.
E não eram piscadas comuns. Eram piscadas verdes. Verde esperança? Verde vigilância? Verde “estou de olho em você, hóspede”? Nunca saberei.
Deitado na cama, eu sentia seu olhar eletrônico sobre mim.
Não era um olhar acusador… era um olhar… protetor.
Algo entre um guarda noturno digital e uma anjinha da guarda em estágio tecnológico.
Enquanto minha esposa mergulhava tranquilamente nos braços de Orfeu — em algum sonho provavelmente romântico, perfumado e musical — eu travava um diálogo silencioso com a sentinela luminosa.
Ela piscava.
Eu piscava de volta.
Ela insistia.
Eu correspondia.
Criamos uma cumplicidade.
Eu não contava carneirinhos, contava piscadelas.
A cada luz verde, um pacto de segurança:
— “Durma tranquilo, humano. Nenhum perigo passará.”
E eu respondia, mentalmente:
— “Obrigado, anjinha cibernética. Continue firme.”
Confesso: senti-me vigiado.
Mas também protegido.
Nunca um detector de fumaça e um roteador Access Point Wi-Fi formaram uma dupla tão amorosa para comigo.
Assim dormi — entre piscadelas verdes e sonhos alheios — sob a guarda de uma anjinha branca de teto, que não tocava harpa, mas emitia sinais luminosos dignos de uma discoteca celestial.
Se aquilo era vigilância, aceito ser vigiado para sempre.
Amém.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
