ARTIGO: TCHAU DUOLINGO

 

TCHAU DUOLINGO! 

“Caiu um cisco no meu olho…” 

                                                     Corujinha verde, vigilante

 

Há algo de profundamente humano em se apegar a personagens — mesmo quando sabemos que eles são digitais, simples construções de uma interface. Ao longo de 365 dias de convivência com o Duolingo, isso deixa de ser uma abstração e passa a ser experiência.

Antes de apresentar o artigo completo, vale lembrar, quase como uma despedida visual, aqueles rostos que acompanharam essa jornada, personagens que caminharam comigo.

Uma Despedida que também é gratidão.

Há despedidas que não se explicam — apenas se sentem.

Completei um ano de estudo no Duolingo, sem falhar um único dia. Um número que, à primeira vista, parece apenas estatístico. Um registro. Um marco. Mas, na verdade, foi uma travessia. Um caminho cotidiano, silencioso, persistente — e, sobretudo, acompanhado.

Ao longo dessa jornada, não estive sozinho.

Quem poderia imaginar que personagens digitais ganhariam espaço afetivo dentro de nós? Lucy, com seu humor peculiar e olhar quase irônico, parecia compreender nossos tropeços com certa indulgência silenciosa. Duo, o famoso ursinho — ou melhor, a coruja verde vigilante — sempre presente, às vezes insistente, mas, no fundo, fiel. Lily, com seu jeito introspectivo e levemente sarcástico, parecia traduzir aquilo que muitas vezes sentimos diante do esforço de aprender. Zari, sempre entusiasmada, trazia leveza. Oscar, com seu ar mais formal, lembrava-nos da estrutura da língua. E Vikram, com sua serenidade, parecia nos convidar à paciência.

Cada um deles, à sua maneira, foi mais do que um recurso pedagógico. Foram companheiros.

A aprendizagem de uma língua estrangeira — no meu caso, o inglês — não é apenas um processo técnico. É uma travessia simbólica. É aceitar ser iniciante novamente. É errar. É recomeçar. É rir de si mesmo. E, curiosamente, esses personagens estiveram ali, como testemunhas silenciosas desse processo.

Hoje, ao encerrar esse ciclo, sinto algo que não esperava: tristeza.

Não pela língua — que continua viva e presente — mas pela ausência dessa convivência diária. Não verei mais Lucy com suas expressões contidas, nem sentirei a presença constante do Duo lembrando-me da lição do dia. Não terei mais aquele pequeno ritual que, por um ano inteiro, fez parte da minha rotina.

Mas toda despedida carrega, em si, um gesto de gratidão.

Foram 365 dias de disciplina, sim — mas também de companhia. De pequenos encontros. De uma pedagogia que, discretamente, humanizou o aprendizado.

Parar não significa perder. Significa reconhecer que houve um tempo, um percurso, e que ele cumpriu seu papel. O conhecimento permanece. A experiência permanece. E, curiosamente, também permanecem as memórias — até mesmo aquelas construídas com personagens que nunca existiram de fato, mas que, de alguma maneira, existiram para nós.

Sigo adiante.

Mas levo comigo Lucy, Duo, Lily, Zari, Oscar e Vikram — não mais como presenças na tela, mas como lembranças de uma jornada que valeu a pena.

E talvez seja isso que define um bom caminho: quando ele termina, mas não se desfaz dentro de nós.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.

www.tortoro.com.br

[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, EDUCAÇÃO, LITERATURA, QUEM SOU

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