ESCREVER EU PRECISO…
Escrever, para mim, nunca foi apenas um hábito. Foi sobrevivência. Desde os meus dezessete anos, quando a juventude ainda era uma mistura de sonhos, inseguranças e silêncios difíceis de explicar, comecei a registrar minha vida em diários. Enquanto muitos jovens procuravam distrações para esquecer os próprios conflitos, eu procurava palavras. Escrevia para compreender o que sentia. Escrevia para não me perder de mim mesmo.
Ao mesmo tempo, lia compulsivamente. Livros de autores nacionais e internacionais traduzidos, romances, poesias, reflexões filosóficas, textos religiosos, biografias.
Cada livro parecia conter uma pista sobre a condição humana. Eu buscava respostas para perguntas que nem sempre conseguia formular claramente. Lia tentando entender a dor, o medo, a solidão, os afetos, a injustiça e a esperança. Lia tentando entender minha própria vida.
Hoje, quando conheço mais profundamente figuras como Franz Kafka e Rei Davi, percebo algo que me toca profundamente: ambos também escreveram para sobreviver interiormente. Kafka transformou angústias em literatura. Davi transformou seus conflitos e tormentos em salmos, orações e poemas que atravessaram os séculos: em ambos encontro ecos daquilo que vivi e ainda vivo.
Talvez seja por isso que me tornei escritor e poeta. Não por escolha puramente estética, mas por necessidade existencial. A escrita nunca foi luxo intelectual em minha vida. Foi abrigo. Foi companhia. Foi espelho. Houve momentos em que minhas palavras me compreenderam antes mesmo que eu compreendesse a mim próprio.
Muitas vezes me pergunto se isso seria uma fuga da realidade. Talvez algumas pessoas pensem assim. Mas hoje acredito que não. Fugir da realidade seria anestesiar-se diante dela. O que fiz foi justamente o contrário: mergulhar nela com intensidade extrema.
Escrever um diário exige coragem, porque nele nos encontramos sem máscaras. Ler profundamente também exige coragem, porque certos livros desmontam nossas certezas e nos obrigam a olhar para dentro.
A escrita me permitiu organizar o caos emocional. A leitura me mostrou que eu não estava sozinho no sofrimento humano. Descobri que outros homens, em outros tempos e países, também enfrentaram angústias semelhantes às minhas. Isso cria uma espécie de fraternidade invisível entre almas inquietas.
Hoje percebo que sobrevivi mental, espiritual e emocionalmente porque escrevi e li, e acredito que continuarei sobrevivendo assim.
Enquanto eu puder transformar minhas inquietações em palavras, haverá uma ponte entre mim e o mundo. Enquanto houver um livro aberto sobre minha mesa ou uma página em branco esperando minhas reflexões, existirá esperança.
Talvez algumas pessoas sobrevivam através da fé, outras pelo trabalho, outras pelo amor. Eu sobrevivo também pela escrita. Porque, quando escrevo, minhas dores deixam de ser apenas dores: tornam-se memória, reflexão, poesia e, sobretudo, sentido.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
