ARTIGO: FRANCISCO SCHMIDT E O COCHEIRO IGNÁCIO ROSSIM

 

FRANCISCO SCHMIDT E O COCHEIRO IGNÁCIO ROSSIM

Recentemente vi no Instagram de Tadeu Chiarelli uma denuncia sobre as lamentáveis condições em que se encontra o Museu do Café, em Ribeirão Preto.

O abandono de um patrimônio nunca começa pelas paredes. Começa pela memória.

Tenho em mãos uma imagem de Tadeu Chiarelli, do antigo Museu do Café de Ribeirão Preto — imóvel que pertenceu ao célebre coronel do café Francisco Schmidt — hoje marcado pela deterioração, pelo silêncio e pelo aparente desleixo do poder público.

O casarão, que já simbolizou prosperidade, trabalho e parte da identidade histórica de Ribeirão Preto, parece lentamente perder não apenas sua estrutura física, mas também o respeito que lhe era devido.

Ao mesmo tempo, guardo outro documento de valor imensurável: uma carta de apresentação datada de 1914, assinada pelo próprio Francisco Schmidt, recomendando o avô materno, Ignácio Rossim, de minha amiga, Maria Inês Pedro Bom, para exercer a função de cocheiro de outro coronel da época.

Um simples papel envelhecido pelo tempo — talvez sem valor para alguns —, mas que preserva algo muito maior do que tinta sobre fibras antigas: preserva relações humanas, trajetórias de vida, confiança, modos de trabalho e fragmentos autênticos da história brasileira.

Maria Inês também enviou-me uma Carta de Cocheiro, do seu avô paterno Luiz Pedro Bom, datada de 5 de maio de 1922, quando era Prefeito de Ribeirão Preto João Rodrigues Guião.

É curioso perceber como patrimônios públicos e pessoais se encontram no mesmo destino quando não são cuidados. O casarão abandonado os documentos centenários pertencem a universos diferentes, mas carregam a mesma essência: ambos são testemunhos vivos de um tempo que não volta mais.

Quando uma cidade deixa ruir seus edifícios históricos, ela não perde apenas construções. Perde referências. Perde identidade. Perde a possibilidade de ensinar às novas gerações quem fomos, como vivíamos e quais caminhos construíram o presente. Da mesma forma, quando famílias descartam cartas, fotografias, cadernos, documentos ou relatos antigos, desaparecem pequenas histórias que jamais serão reescritas pelos livros oficiais.

A História não vive apenas nos grandes monumentos. Ela também habita envelopes amarelados, assinaturas antigas, retratos esquecidos em gavetas, móveis herdados e lembranças preservadas por afeto.

Talvez seja justamente isso que mais impressione nesse paralelo: enquanto o patrimônio público depende do compromisso das instituições, o patrimônio pessoal depende do amor e da consciência de cada indivíduo. Um casarão histórico pode ser restaurado com verbas e projetos. Já uma memória familiar destruída pelo descuido desaparece para sempre.

Preservar é um ato de respeito. Respeito à cidade. Respeito aos antepassados. Respeito às pessoas simples que ajudaram a construir silenciosamente uma época.

A fotografia do museu deteriorado e os documentos de 1914 e 1922, parecem dialogar entre si. Uma denuncia o esquecimento coletivo. A outra resiste como prova de que alguém, em algum momento, compreendeu o valor de guardar o passado.

E talvez seja exatamente disso que mais precisamos hoje: menos pressa em destruir, e mais coragem para preservar.

 

Em tempo:

O trabalho de um cocheiro de confiança de um coronel do café, no auge do ciclo cafeeiro brasileiro — especialmente em regiões como Ribeirão Preto — ia muito além de simplesmente conduzir carruagens. Era uma função de enorme responsabilidade, prestígio silencioso e proximidade com o poder.

 

Um cocheiro de confiança costumava conduzir carruagens, tílburis, landôs e carros puxados por cavalos; cuidar dos animais: alimentação, higiene, ferraduras, descanso e treinamento; manter os veículos limpos e em perfeito estado; conhecer estradas, atalhos e fazendas da região; transportar o coronel, familiares, convidados importantes e até documentos sigilosos; acompanhar viagens longas entre fazendas, estações ferroviárias e cidades; servir como uma espécie de guarda-costas discreto; preservar segredos da família e dos negócios.

Muitas vezes, o cocheiro era um homem extremamente fiel, quase integrante da estrutura íntima da casa-grande. Como passava horas sozinho com o coronel durante viagens, acabava ouvindo conversas políticas, negociações de compra de terras, conflitos familiares e assuntos financeiros.

Nos tempos dos “coronéis do café”, a confiança era fundamental. Um cocheiro podia saber quem visitava a fazenda; perceber alianças políticas; transportar dinheiro; levar mensagens reservadas; acompanhar encontros discretos.

Por isso, normalmente era alguém escolhido com muito cuidado.

Também havia um aspecto simbólico: um bom cocheiro representava o status do coronel. Cavalos bem tratados, carruagem elegante e condução refinada demonstravam riqueza e poder social.

Alguns cocheiros tornaram-se figuras muito conhecidas localmente, especialmente em cidades ligadas ao café, como Ribeirão Preto, Sertãozinho,  Franca e Campinas.

Em certas fazendas, o cocheiro também acumulava funções de administrador de estábulos; treinador de cavalos; acompanhante em viagens; mensageiro pessoal.

Era uma profissão dura, de rotina pesada, mas que podia oferecer prestígio e relativa estabilidade dentro da hierarquia rural da época.

 

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

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