OS ÚLTIMOS DIAS DE CLEMENTE
(Miniconto)
Seu Clemente acordava antes do sol, como sempre fizera. Ao lado, Dona Nair ressonava baixinho.
Após levantar-se, ele fazia suas orações em seu Sanctum, agradecendo pelo novo dia e pedindo proteção. Acendia um incenso de lavanda, alongava-se devagar e iniciava sua hora de exercícios: polichinelos, flexões, caminhada na esteira. O suor descia em fios, lavando o corpo velho mas resistente. A seguir tomava uma ducha fria.
Depois vinha o melhor momento. Colocava Enya — iniciando por Only Time — para tocar… e, em posição de lótus, fechava os olhos.
Caminhava mentalmente por verdes campos, entre ravinas de altas montanhas, sentindo a brisa fresca, a névoa envolvente, e ouvindo a sinfonia dos pássaros. O céu estava sempre azul, as águas sempre cristalinas. Seu filho, Rod, estava lá, vestido de branco, sorrindo para ele. Caminhavam juntos, protegidos pelo Espírito Santo. Rod nunca cresceu. Permanecia uma criança, segurando sua mão com os dedos pequenos e cálidos.
Passado o momento de meditação, Clemente voltava ao mundo com uma caipirinha na mão. Tomava, junto com Dona Nair, um gole generoso, sentindo o limão morder a língua e o álcool aquecer o peito. Depois ia para a sauna, sozinho, suando as lembranças.
Assim começavam todos os finais de semana, dos últimos dias de sua vida.
Até que, numa dessas manhãs, algo diferente aconteceu.
Quando abriu os olhos, não estava mais em sua casa, mas num campo surreal, verde e infinito.
Rod não era mais uma criança, mas um rapaz alto e forte, ainda vestido de branco.
— Pai, hoje não precisa voltar.
Seu Clemente sorriu. Abraçou o filho e caminhou sem pressa: O Espírito Santo pairava sobre eles.
No horizonte, uma mesa posta: um incenso aceso, uma caipirinha e uma sauna à espera.
E foi então que um panda-gigante surgiu, vestindo um terno de lantejoulas. Bateu palmas e disse:
— Finalmente, Clemente! Agora, podemos começar o show.
As luzes se acenderam, a plateia aplaudiu. Clemente olhou para Rod, que apenas deu de ombros e riu. E então, sem mais questionar, os dois começaram uma nova dança.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.
www.tortoro.com.br
ancartor@yahoo.com
COMENTÁRIOI(S) SOBRE O ARTIGO ACIMA:
Miniconto comovente, deixando transparecer a inquietação da alma do escritor.
NELY CYRYNO -membra da ARE – Academia Ribeirãopretana de Educação