O LIVRO DE MÓRMON: UMA LEITURA ESCLARECEDORA
“As verdades reveladas se perdem quando as pessoas rejeitam os profetas”
A Restauração do Evangelho de Jesus Cristo
Navegando pela internet no final de inverno de 2025, encontrei um vídeo em que estava sendo ofertado, gratuitamente, um exemplar de “O Livro de Mórmon”.
Vi, naquele momento, a oportunidade de conhecer mais um documento religioso, e pedi que me enviassem um exemplar.
Na noite de 18 de agosto recebi a visita de dois jovens missionários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias — um equatoriano e outro norte-americano — que me entregaram um exemplar da obra solicitada, acompanhada de uma cartão de visita, e a sugestão para que eu lesse o capítulo II , do Livro de Néfi, já que eu estava pronto para uma boa noite de sono, após um dia difícil de trabalho.
Despedimo-nos após rápida conversa, depois de eu haver explicado que poderíamos voltar a conversar após minha leitura e reflexão sobre o livro.
Leitor que sou da Bíblia Sagrada, a primeira informação que procurei foi: onde Néfi é mencionado na Bíblia?
Descobri então que Néfi — apesar do nome parecido com nomes de outros profetas não é mencionado no Antigo Testamento — é um personagem importante do Livro de Mórmon.
Segundo o relato do Livro de Mórmon, Néfi viveu por volta do século VI a.C. em Jerusalém, no mesmo período em que o profeta Jeremias pregava.
Ele era filho de Leí, um profeta que recebeu a ordem de Deus para sair de Jerusalém com sua família, antes da destruição da cidade pelos babilônios.
Néfi é descrito como fiel, obediente e corajoso. Foi ele quem construiu um navio, guiado por inspiração divina, que levou sua família para o continente americano.
No Novo Mundo, Néfi tornou-se líder espiritual e político de seu povo, chamado posteriormente de “nefitas”.
Nefi, portanto, não aparece na Bíblia. Ele é mencionado apenas no Livro de Mórmon. Contudo, sua história é apresentada em paralelo com o contexto bíblico, já que ele teria saído de Jerusalém pouco antes da queda da cidade, evento que a Bíblia também descreve (2 Reis 24–25).
Néfi é considerado um dos primeiros e principais profetas do Livro de Mórmon.
Ele teria escrito grande parte dos primeiros livros desse texto (1 Néfi e 2 Néfi).
Para os fiéis da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Néfi é exemplo de fé, obediência e revelação pessoal.
A partir daí, interessei-me por saber até que ponto poderia ser traçado um paralelo entre esses dois Livros Sagrados aqui mencionados.
E encontrei as seguintes coincidências: ambos os livros colocam Jesus Cristo como figura central da salvação: tanto a Bíblia quanto o Livro de Mórmon são apresentados por seus seguidores como textos inspirados por Deus; fé, arrependimento, caridade, esperança e vida eterna são valores fundamentais nos dois e ambos mesclam relatos históricos com ensinamentos morais e espirituais.
Também encontrei as seguintes diferenças: a Bíblia é uma coletânea de livros escritos ao longo de muitos séculos (aprox. 1200 a.C. a 100 d.C.), em contextos judaicos e cristãos do Oriente Médio; o Livro de Mórmon foi publicado em 1830 por Joseph Smith, que afirmou traduzi-lo de placas de ouro com a ajuda de revelação divina. Ele descreve a história de povos que teriam vivido no continente americano e recebido a visita de Cristo após sua ressurreição; para o cristianismo tradicional (católico, ortodoxo, protestante), apenas a Bíblia é considerada Escritura inspirada; para os santos dos últimos dias (mórmons), o Livro de Mórmon é um volume adicional de Escritura, que complementa a Bíblia.
Também notei durante a leitura muitas concordâncias: ambos ensinam a fé em Jesus, a necessidade do arrependimento, do batismo, da obediência aos mandamentos e da graça divina; mencionam família, serviço ao próximo, oração, perdão, amor a Deus e ao próximo; ambos apresentam profetas que transmitem mensagens divinas ao povo.
Em sendo assim, não vejo motivo algum para termos que optar por um ou outro, a não ser pela tradição religiosa e visão pessoal.
Penso que em termos acadêmicos podemos estuda-los lado a lado como documentos religiosos distintos, representativos de tradições diferentes: o cristianismo e o movimento restauracionista do Século XIX.
Peço perdão aos meus amigos Mórmons se porventura estou cometendo algum erro em minha análise — por não ser um teólogo, — mas a meu ver, ambos se complementam.
Para terminar, existe no folheto A Restauração, a seguinte orientação: você, leitor, deve pedir ao Pai Celestial — após a leitura de O Livro de Mórmon — que confirme que ele é Sua palavra: ao fazer isso, Ele revelará a você, por meio do Espírito Santo, que o livro é verdadeiro.
Mas, diante da minha insignificância, essa confirmação será obtida somente a humanos muito especiais, pois como diz Gilberto Gil:
Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz / Tenho que encontrar a paz /Tenho que folgar os nós / Dos sapatos, da gravata / Dos desejos, dos receios / Tenho que esquecer a data / Tenho que perder a conta / Tenho que ter mãos vazias / Ter a alma e o corpo nus.
Se eu quiser falar com Deus / Tenho que aceitar a dor / Tenho que comer o pão / Que o diabo amassou / Tenho que virar um cão / Tenho que lamber o chão / Dos palácios, dos castelos / Suntuosos do meu sonho / Tenho que me ver tristonho / Tenho que me achar medonho / E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração.
Se eu quiser falar com Deus / Tenho que me aventurar / Tenho que subir aos céus / Sem cordas pra segurar / Tenho que dizer adeus / Dar as costas, caminhar / Decidido, pela estrada / Que ao findar, vai dar em nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Nada, nada, nada, nada / Do que eu pensava encontrar
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
