ONU E A FOME: PIADA DE MAU GOSTO
Primeiramente vamos falar sobre o frango assado e a ilusão da estatística.
Duas pessoas, um frango assado: uma comeu o frango inteiro e a outra não comeu nada.
Estatisticamente: cada uma comeu 50% do frango.
Na realidade: uma saiu satisfeita, a outra saiu com fome.
É assim que a média estatística muitas vezes esconde a desigualdade.
O mesmo acontece quando falamos de renda ou fome no Brasil: a média pode dizer que todos estão melhorando, mas a vida real mostra que alguns têm tudo e outros continuam sem nada.
O Brasil foi aplaudido no cenário internacional ao ser retirado do mapa da fome da ONU. Um “feito histórico”, digno de manchetes e discursos políticos.
Mas, basta um olhar mais atento, e a contradição salta aos olhos: se o país saiu do mapa da fome, por que ainda precisamos de campanhas para alimentar nossas crianças?
A Abrinq, entidade que atua em defesa dos direitos da infância, continua pedindo doações para garantir que meninos e meninas tenham o que comer. É uma cena dolorosa: a sociedade civil correndo atrás do que deveria ser garantido pelo Estado.
A ONU mede números. O povo sente fome.
A estatística, ao dizer que menos de 5% dos brasileiros vivem em insegurança alimentar grave, pode até ser verdadeira — mas não conta a história da criança que chega à escola com fome, da mãe que divide um pão entre quatro filhos, do adolescente que depende da merenda para não desmaiar na sala de aula.
É nesse abismo entre o anúncio oficial e a realidade vivida que mora a maior das injustiças. Um país que se orgulha de ter saído do mapa da fome não pode aceitar que suas crianças sigam comendo apenas quando há doações.
A fome no Brasil não é mais uma estatística internacional. É um drama humano, com rosto, nome e idade. E enquanto ela existir, não há mapa, número ou discurso que a justifique.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
COMENTÁRIO(S) SOBRE O ARTIGO ACIMA:
