CONFISSÃO DE UM BRASILEIRO INDIGNADO
“Para o mundo que eu quero descer” é o título de uma famosa canção de Silvio Brito. Ela é, para mim, uma expressão de cansaço e frustração com o Brasil, diante do noticiário.
Hoje olho para o nosso país e sinto um nó na garganta. Não é apenas medo do futuro, não é apenas indignação política. É uma dor moral. Uma tristeza que parece atravessar a alma, como escreveu Dostoiévski, ao afirmar que “o grau de civilização de uma sociedade pode ser medido pela forma como ela trata seus mais frágeis”. Pois bem: o que estamos fazendo? A quem estamos protegendo? A que mestres estamos servindo?
Nos meus quase oitenta anos, já não tenho mais as forças físicas dos quarenta, e, infelizmente, só tenho minha voz e as letras para manifestar meus protestos.
Cresci acreditando que a justiça era o pilar mais alto de uma nação. Fui educado a respeitar instituições que pareciam indestrutíveis, como catedrais erguidas sobre rocha firme. A OAB, a Maçonaria, a CNBB, as Forças Armadas… nomes que, para mim, tinham peso de evangelho, de Constituição moral, quase sagrada.
Onde está a OAB, guardiã da ordem jurídica e defensora dos direitos fundamentais?
Onde está a CNBB, que sempre levantou a voz pelos oprimidos e pela justiça?
Onde está a Maçonaria, que se orgulhava de defender a liberdade, a ética e a evolução moral?
Onde estão as Forças Armadas, cuja missão constitucional inclui a proteção da Pátria e das leis?
Mas, ao observar o que vejo hoje, pergunto como Eclesiastes:“Tudo é vaidade?”
Sim, porque o silêncio dessas instituições ecoa como pecado. Não o pecado humano, individual, que a confissão perdoa e o arrependimento cura, mas o pecado da omissão, que corrói uma sociedade como cupim devorando madeira nobre.
Onde estão aqueles que antes levantavam a voz? Onde estão os defensores da lei, os guardiões de princípios, os profetas sociais da moralidade? As instituições que um dia ergueram bandeiras éticas agora parecem tímidas, adormecidas, anestesiadas diante da inversão de valores.
Penso em Santo Agostinho, que dizia que “sem justiça, o que são os Estados senão grandes bandos de ladrões?”, e temo que estejamos caminhando nessa direção, como embarcação sem leme, navegando não em mar de esperança, mas em pântano moral.
Não peço perfeição. Não creio em santos civis. Sei que a história humana é feita de quedas, de traições, de desertos. A Bíblia inteira é atravessada por homens que caíram, erraram, corromperam-se — e depois despertaram para a verdade. A salvação nunca esteve em nunca errar, mas em não permanecer no erro.
E, no entanto, vejo hoje que o erro virou rotina, a mentira virou lei, e a corrupção virou hábito. É como se Nietzsche, ao anunciar a morte de Deus, tivesse agora testemunhado a morte da moral — não pelos ateus, mas pelos indiferentes.
E lembro-me, então, de Raul Seixas e seu grito profético:
“Para o mundo que eu quero descer!”
Sim, às vezes tenho vontade de descer deste trem enlouquecido. Mas depois penso: descer para onde? O problema não está no mundo, mas na nossa falta de coragem de enfrentá-lo.
As instituições não podem se calar. Não podem rasgar seus estatutos como quem esquece sua própria história. Não podem apagar suas memórias gloriosas como quem apaga um quadro negro. A Maçonaria não nasceu para ficar muda. A CNBB não foi criada para ser cúmplice por omissão. A OAB não foi instituída para assistir à injustiça em silêncio. As Forças Armadas não foram formadas para apenas marchar — mas para defender.
Não quero descer do mundo.
Quero que o mundo volte a ter direção.
Quero que as catedrais morais despertem.
Quero que o Brasil recupere a grandeza de seus princípios.
Se as instituições ressuscitarem sua consciência, talvez nós, cidadãos comuns, possamos ressuscitar nossa esperança. Porque, como disse Cristo: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Mas, para conhecer a verdade, é preciso ter a coragem de pronunciá-la.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
COMENTÁRIOS SOBRE O ARTIGO ACIMA:
Oi amigo perfeito seu texto, concordo plenamente com você, fui criado dentro da igreja católica, aos nove anos de idade estive no seminário arquidiocesano, como quase tudo deu errado na minha vida, fui podado, antes mesmo de começar a estudar par ser padre. Fiz quase todos os trabalhos pastorais. Estudei três anos teologia para leigos, quando iria ser ordenado diácono, a mãe dos meus filhos, me disse que não iria aceitar, porque homens casados tem que ter autorização das esposas, para receber o sacramento da ordem diaconal.Já faz cinco anos que parei de ir a igreja, depois que a CNBB recebeu o Dino na sede da CNBB nem a missa estou indo, total decepção.
CLAUDIO AQUINO – um amigo das mídias sociais
Também sinto um nó na Garganta e como disse “Medo do Futuro”, principalmente para aqueles que estão vindo e crescendo.
WALBER TÓRTORO – meu caro primo
Eu também estou indignada!! Às vozes das entidades, quê seriam unicamente para ser guardiões da constituição e contra o errado, se calam e me deixam envergonhada com esta atitude!!!!
KARMEN KAIRALA –uma amiga/irmã de longo tempo. Professora de História
Parabéns pelo novo artigo. Eu também estou indignado. Povo omisso. Maçonaria pérfida. Mourão safado. Tudo perdido. Tenho vergonha.
JOSÉ PAULO RAVASIO –um caro amigo/irmão
Enquanto existir uma gota de sangue em nossas veias, não devemos desistir, nem se for preciso ficar de joelhos, orar, orar, orar, esperança é a última que morre, com a força do povo e a fé em Deus nós salvaremos nosso país. Já que é OA as forças armadas, a maçonaria, não tem coragem, se acovardam, nós mostraremos a força que nós temos juntamente com Deus, quem sabe aí, eles reconhecem a covardia e se unem a nós. Eu creio
ROSANA ELIAS – uma amiga de longo tempo
