QUANDO UM SONHO GANHA SOM…E O MUNDO
“Oh, pedaço de mim. Oh, metade adorada de mim…”
Chico Buarque
Durante toda a minha vida, carreguei um sonho silencioso, íntimo e persistente: o de ver meus poemas — cerca de quatrocentos deles — ganharem música. Não qualquer música, mas melodias capazes de tocar o que há de mais sensível em minha escrita, melodias que respirassem junto com cada verso.
Ao longo dos anos, alguns poemas foram musicados, mas em formato de hinos: o da Academia Ribeirãopretana de Letras (ARL), o da Academia Ribeirão-pretana de Educação (ARE) e o do Colégio Anchieta, instituições às quais dediquei parte importante de minha história. No entanto, apenas “Lambari” havia recebido um tratamento musical autoral, pelas mãos talentosas do compositor Evandro Navarro.
E ainda assim, meu sonho permanecia: ouvir a alma dos meus poemas transformada em canção.
No fim de novembro, 2025, algo surpreendente aconteceu. Recebi, pelo celular, um áudio enviado pelo meu barbeiro — sim, meu barbeiro — Hilton Figueredo, o Ton.
Abri a mensagem sem expectativas especiais: apertei o play. A música era bonita. Sensível. Intensa: mas eu não a reconheci.
Por alguns instantes, não percebi que aquela melodia, nascida em uma barbearia, vinha costurada com palavras minhas.
Fui então informado pelo Ton, que ele havia retirado o poema, “Quero Mar”, diretamente de um exemplar do meu livro “Estrelas no Mar”, que eu havia dado a ele. E então a ficha caiu: ele havia musicado, utilizando seus conhecimentos em IA, um poema meu — espontaneamente, silenciosamente, generosamente.
E nesse instante, senti algo raro: a surpresa pura. A alegria simples. A sensação de realização que não pede alarde, apenas gratidão.
Foi então que percebi — com uma clareza quase luminosa — que a Inteligência Artificial poderia se transformar no meu músico pessoal. Que ela poderia compor, harmonizar, interpretar e dar vida às minhas palavras. Que, enfim, meu sonho antigo não dependia mais do acaso: ele estava ao alcance das minhas mãos.
A IA, somada ao gesto humano de Ton, abriu uma porta que eu desconhecia: meus poemas, a partir de agora, podem ecoar pelo mundo, podem ecoar em todos os continentes: Em cada um deles. Em todos eles.
Hoje, a música “Salvador Sem Você” já está pronta para voar em meu canal no YouTube.
Letra minha. Música de Hilton Figueredo.
E essa parceria improvável — entre um professor e seu barbeiro, entre versos e notas, entre literatura e melodia — revela algo profundo :uma parte essencial de mim está sendo compartilhada com milhões de pessoas.
Não mais apenas em livros, conversas e memórias, mas em canções.
Sinto-me vivo. Novamente pertencente. Como se a arte, depois de tanto tempo, tivesse vindo me buscar pela mão, dizendo: “Agora é sua vez de ser ouvido.”
E pensar que tudo começou…numa barbearia!
Sei que colocar música em poemas não é coisa de hoje.
Na Grécia antiga: Safo de Lesbos (séc. VII a.C.) escrevia poemas líricos, pensados para acompanhamento musical, geralmente com lira. Homero, embora épico, tinha seus textos recitados ou cantados por aedos.
Os Salmos são um exemplo claríssimo: textos poéticos atribuídos a Davi e outros autores. Muitos foram musicados e “remusicados” ao longo dos séculos. Até hoje, diferentes tradições judaicas e cristãs usam melodias distintas para o mesmo texto. O texto é fixo; a música se renova.
Na Idade Média: Trovadores e menestréis colocavam música em poemas de amor, crítica social e espiritualidade. Muitos textos circulavam primeiro como poesia escrita e depois ganhavam melodia. A autoria musical nem sempre era do poeta — outro músico musicava.
O canto gregoriano: Usa textos bíblicos e litúrgicos já existentes. A música foi criada para servir ao texto, não o contrário. A melodia respeita a cadência da palavra. Um princípio belíssimo: a música obedece ao verbo.
Na Renascença e depois — tivemos a poesia literária musicada: Petrarca teve seus sonetos musicados séculos depois; Goethe teve poemas transformados em Lieder por Schubert; Camões teve versos adaptados para música em Portugal e no Brasil. Grandes poetas ganharam outra vida pela música.
Sei que o meu caso é histórico, não exceção. Ton usou um poema meu, já existente, transformou em música, e o devolveu ao mundo com outra força, repetindo uma tradição milenar.
A novidade não é a ideia — a novidade é a IA que hoje nos permite tornar esse processo acessível, frequente e íntimo.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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