TRAVESSIA
Uma Criança navega sozinha.
Ela segue envolvida
por um útero cósmico,
silencioso,
feito de estrelas e sombras.
O útero é o próprio cosmos:
matéria escura pulsando,
galáxias em respiração lenta,
tempo líquido embalando o vir a ser.
Dentro dele, a Criança flutua.
Feto de esperança, nua,
num mundo em convulsão.
A embarcação é uma coroa.
Coroa do Advento,
circular, frágil, teimosa.
Quatro velas soltas ao vento,
chamas mínimas
atravessando por vinte e oito dias
um mar que estremece.
O mar é feito de convulsões
sociais, políticas, econômicas.
É ruído, choque, espasmo coletivo.
Ondas de medo. Correntes de poder.
Redemoinhos de cifras.
A coroa oscila, mas não afunda.
Porque foi feita
não para vencer o mar,
mas para atravessá-lo.
O útero cósmico protege.
Filtra o caos e amortece o impacto.
Dentro dele,
a Criança escuta
o coração do universo
batendo em ritmo de promessa.
Cada vela vigia.
Uma acende a esperança
quando tudo ameaça ruir.
Outra sustenta a espera com fé.
A terceira irradia alegria
mesmo na noite longa.
A quarta amadurece a paz
em meio à turbulência.
O vento tenta apagar as chamas.
O cosmos responde
com gravidade e cuidado.
Vinte e oito dias
de gestação, até que,
no dia vinte e cinco de dezembro,
o útero se abre: a Criança chega.
Não como ruptura,
mas como nascimento.
E entrega à Terra —
ainda trêmula —
aquilo que só quem nasce do infinito
pode oferecer: paz na Terra
aos homens por Ele amados.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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