O LABIRINTO
(miniconto)
O professor Anselmo chegou cedo ao colégio, como fazia há décadas. Os degraus rangiam sob seus pés cansados enquanto subia a escadaria estreita e sem corrimão. Ao fim do corredor, onde deveria estar sua sala, encontrou apenas um cômodo vazio, sem móveis, coberto por lonas e poeira.
— Deve ter havido um engano — murmurou.
Procurou ajuda.
Caminhava pelos corredores antigos, mas as salas pareciam diferentes. Rostos desconhecidos, homens de terno e gravata, ocupavam as mesas. Ninguém parecia notar sua presença. Tentou falar, mas sua voz saía abafada, como se falasse debaixo d’água.
De repente, um ex-aluno apareceu.
— Olá, professor!
— Que bom ver você ! Você pode me ajudar?
O rapaz sorriu e começou a andar ao lado dele, em silêncio. Passaram por longos corredores com pés-direitos exagerados, escadas estreitas que pareciam sem fim, portas que levavam a lugares cada vez mais estranhos. O trajeto nunca terminava. Eram espirais dando voltas infinitas naquele prédio que parecia um casarão europeu do século passado.
O medo fazia o suor escorrer pela testa de Anselmo. Suas pernas fraquejavam.
De repente, um incômodo cresceu dentro dele: precisava urgentemente de um banheiro.
Avistou uma placa. Correu até a porta, mas os banheiros estavam imundos. Vasos transbordavam, pias quebradas. O único sanitário “usável” estava sem porta.
Na urgência do momento, tentou se aliviar ali mesmo, no corredor. Mas sempre, sempre alguém aparecia do nada.
— Professor!
Ele se encolheu. Suava frio. O pânico crescia. O desespero tomava conta.
Até que o som estridente de um despertador cortou o ar.
Anselmo abriu os olhos. Estava no seu quarto. O relógio. A roupa de trabalho.
Suspirou aliviado, mas com um gosto amargo na boca.
Levantou-se, vestiu-se e saiu para trabalhar no colégio.
Sabia que, mais cedo ou mais tarde, voltaria àquele pesadelo recorrente.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
ancartor@yahoo.com
COMENTÁRIO(S) SOBRE O ARTIGO ACIMA:
Esses labirintos….sejam pesadelos ou realidades nos amedrontam…Quem não os tem ?
MARIA INÊS PEDROBOM – Profa. e uma amiga de longos tempos