ARTIGO: ACERVO DESPROTEGIDO: HOMENAGEM A VICENTE GOLFETO

 

ACERVO DESPROTEGIDO: HOMENAGEM A VICENTE GOLFETO

 

“A biblioteca é uma representação de Deus”

Borges

 

O ilustre economista, doutor Heitor Beltrami, foi em vida um farol do saber, um mestre da etimologia e da epistemologia, um devorador de livros e um apóstolo da razão. Dedicara décadas a esmiuçar as raízes das palavras como quem escava um sítio arqueológico da inteligência. Seu amor pelo conhecimento era tão vasto quanto sua biblioteca, uma coleção monumental de tratados, primeiras edições e volumes raros, todos cuidadosamente anotados à margem por sua mão meticulosa.

Ao falecer, legou esse tesouro à Associação Filantrópica do Saber e do Pensamento, entidade à qual dedicara sua vida e onde sonhara que seus livros permaneceriam, iluminando gerações futuras. Mas o tempo, esse cruel especulador de sonhos, mostrou-se implacável. Passados dois anos de sua morte, os dirigentes da associação decidiram que a biblioteca era um fardo, um espaço ocupado por um morto que já não contribuía para o pagamento das contas.

E assim, em uma manhã qualquer, os livros foram despejados à porta da associação, livres para quem quisesse pegá-los. Alguns transeuntes levaram um volume por curiosidade, outros cinco para decorar estantes vazias, outros vinte para vender no sebo mais próximo. Uma enciclopédia foi usada como suporte para uma mesa bamba. Um ensaio sobre a economia medieval acabou forrando a gaiola de um canário belga. O tratado de etimologia, sua obra mais querida, foi transformado em um calço para uma estante desnivelada de uma loja de quinquilharias.

A cena lembrava a morte de Tiradentes, cujo corpo foi esquartejado e suas partes distribuídas.

Dizem que, naquela noite, o chão do cemitério tremeu. O economista Heitor Beltrami, sentindo o peso da profanação intelectual, girou no túmulo como um financista observando o mercado despencar. O vento sussurrou palavras em grego arcaico, um gato miou em latim vulgar, e um mendigo, abraçado a um tomo sobre políticas fiscais do século XIX, teve um sonho em que um velho furioso o repreendia por subverter a ordem dos verbetes.

Na manhã seguinte, um único livro restava na calçada: um pequeno volume sobre a história do escambo. Estava aberto em uma página que dizia: “No fim, tudo encontra seu preço, ainda que seja zero.”

 

A semelhança entre o miniconto acima, comparado ao editorial de mesmo título, de hoje, 14 de março de 2025, do jornal Tribuna Ribeirão, não é mera coincidência.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
ancartor@yahoo.com

 

COMENTÁRIO(S) SOBRE O ARTIGO ACIMA:

 

Muito triste esse artigo, coitado espero que ele esteja num nível já muito elevado do outro lado, para que não veja o que foi feito com seus livros aqui na terra

Pois ficaria muito triste

ROSANA ELIAS – uma grande amiga

 

É vero?  Quando adolescente, éramos vizinhos, e tínhamos uma convivência muito alegre. Realmente era uma biblioteca ambulante.

MARIA AMÉLIA ZUCOLOTTO – Membra da ARE – Academia Ribeirãopretana de Educação

 

Nossa Tórtoro, bom texto, mas de uma realidade incomum.

Se os grandes intelectuais são tão desprezados depois da morte o que se espera dos pobres sonhadores que deixam aqui e ali algum sonho descrito com tanto carinho?

A realidade é sempre assim, mas fiquei com a cabeça cheia de  caraminholas.

RITA MOURÃO – escritora, Membra da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras

 

 

 

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