O REFLEXO DA LOUCURA
(Miniconto)
O doutor JC, renomado cardiologista, ouviu falar de um homem peculiar chamado Professor Cid, que afirmava ter duas almas. Curioso, convidou-o para uma consulta no seu consultório.
— Duas almas? Interessante…— murmurou JC, ajustando os óculos.
— Sim, doutor. Uma vem dos outros, outra do espelho — explicou Cid, apontando um grande espelho na sala.
JC anotou freneticamente e, decidido a comprovar a teoria, ou não, posicionou-se diante do espelho ao lado de Cid. De repente, suas imagens refletidas começaram a rir descontroladamente.
— Ora, doutor, que significa isso? — exclamou Cid, pálido.
JC também empalideceu. O espelho não refletia mais apenas os dois, mas uma multidão de figuras idênticas, todas com livros nas mãos e segurando estetoscópios.
— Ah, sim… agora entendo tudo! — gritou JC, triunfante. — Se o espelho me vê como louco, eu devo ser internado!
E, sem hesitar, preencheu seu próprio prontuário e trancou-se num hospício. Cid, confuso, olhou para o espelho e perguntou:
— E agora? Quem me dá minha alma?
O espelho sorriu e respondeu:
— Experimente ser um Therian.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
ancartor@yahoo.com