ARTIGO: FALANDO COM MÁQUINAS

 

FALANDO COM MÁQUINAS

Outro dia vi um homem atravessando a rua, falando sozinho. Não, ele não estava louco, tampouco bêbado. Falava com o celular. Dava ordens ao Google com a autoridade de quem comanda tropas: “Ok Google, qual a previsão do tempo?”, “Lembre-me de comprar ração pro gato”, “Toque Elis Regina”. O trânsito parou para ele, mas ele não viu. Estava entretido demais conversando com sua máquina.

Vivemos uma era em que as palavras são ditas aos ventos digitais, mas já não chegam aos corações. Pergunte a alguém como está, e ele responde com um “tudo bem” automático, como se fosse um chatbot humano. E seguimos, lado a lado, sem realmente estarmos juntos.

Falamos com a TV, gritando o nome do jogador que perdeu o gol. Conversamos com Lily no Duolingo. Discutimos com atendimentos eletrônicos de bancos que não nos escutam. Chamamos a assistente virtual pelo nome como quem chama a avó na varanda. Só que a avó já não está mais ali. E, mesmo que estivesse, talvez não soubéssemos mais como conversar com ela.

E o mais estranho é que estamos cada vez mais conectados — mas com o quê? Com quem? Com vozes sem rosto, com respostas programadas, com frases padronizadas, com “em que posso ajudar?”, sem nenhuma real intenção de ajudar.

Temos medo de olhar nos olhos. É como se o humano tivesse se tornado o estranho. Fugimos do toque, do silêncio que antecede uma fala verdadeira. Preferimos digitar emojis do que enfrentar a vulnerabilidade de um “estou sofrendo”. Preferimos enviar áudios de dois minutos do que ouvir cinco minutos de confissão sincera.

Talvez estejamos esquecendo o idioma das almas. Aquele que se aprende com o silêncio compartilhado, com o choro respeitado, com o abraço que não precisa de legenda.

As máquinas não nos julgam. Mas também não nos acolhem. Elas respondem — e isso nos basta. Ou achamos que basta.

E nesse cenário, as vozes humanas vão sumindo. Os olhos que antes buscavam olhos agora buscam telas. Os ouvidos que antes ouviam o outro agora escutam notificações.

Talvez um dia ainda reaprendamos a arte do encontro. A mágica de ouvir um desabafo sem pressa. A sabedoria de calar ao lado de alguém que só precisa de presença.

Mas por enquanto, seguimos assim: tão acompanhados pelas máquinas — e tão sozinhos entre os humanos.

Quem sabe, um dia, ao desligarmos tudo, consigamos finalmente ouvir o que os corações têm tentado dizer em silêncio há tanto tempo.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA