ARTIGO: ATO DE PERMANÊNCIA: POR QUE ESCREVO

 

ATO DE PERMANÊNCIA: POR QUE ESCREVO

“Morremos duas vezes: uma quando paramos de respirar, e outra, definitiva, quando somos esquecidos”

                                                           Irvin D. Yalom – Psiquiatra

Ryoki Inoue escreveu mais de mil livros.

Não por vaidade. Não por dinheiro. Escreveu porque precisava. Como quem respira. Como quem sangra. Como quem sobrevive.

Essa escrita torrencial, que não se curva à estatística, não é sobre quantidade, mas sobre urgência — a urgência de permanecer.

Eu também escrevo.

Não porque me acho importante. Não porque o mundo precise ouvir-me. Escrevo para resistir às minhas dores — aquelas que não pedem palco, não se exibem, não gritam. Elas apenas querem abrigo, e buscam encontrar espaço no coração de alguns poucos leitores que, generosamente, me acolhem em silêncio.

Não posso parar de escrever. Não por um capricho, mas porque a vela precisa continuar acesa. Enquanto escrevo, há luz. Enquanto há luz, ainda sou.

Sei que um dia serei esquecido. É natural. É humano. A memória do mundo é breve e dispersa. Mas escrevendo meus artigos, ao menos garanto que haverá algo para ser esquecido junto comigo. Deixo vestígios, ainda que frágeis. Traços de mim, como passos na areia, antes da maré.

Cada artigo que nasce de mim é como um pequeno ato de resistência. Uma teimosia contra o apagamento. Um gesto humilde de permanência. Hoje sou porque escrevo.

E enquanto houver papel, ou tela, ou ideias — seguirei acendendo a vela. Porque, em meio à escuridão dos dias, há sempre alguém, em algum lugar, precisando de uma faísca.

Enfim, para mim, escrever é preciso, viver não é preciso: escrever é o que me mantém são.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, BIOGRAFIA, LITERATURA