ARTIGO: O HOMEM QUE DESAPARECIA PARA DENTRO DO TEMPO 

 

O HOMEM QUE DESAPARECIA PARA DENTRO DO TEMPO 

“O tempo não existe” – Feynman: documentário no Youtube.”

Ele tinha acabado de conhecer, e ficado profundamente impressionado, pela teoria de Feynman sobre o tempo.

Então, sentiu que tinha 80 anos — ou talvez 12, ou nenhum.

Agora, ninguém sabia ao certo, nem ele.

Guardava em uma gaveta relógios sem ponteiros, fotografias que ainda não haviam sido tiradas, e um retrato seu olhando para alguém que ainda não nascera.

Chamava-se — quando lembrava — Cronos, mas às vezes atendia por “Ontem”.

Todas as manhãs, ele acordava antes de dormir.

Levantava-se devagar para não acordar o passado, que dormia ao lado, respirando memórias que ainda iam acontecer.

Ia até a cozinha, e colocava água para ferver no futuro.

O café sempre chegava atrasado.

Certo dia — ou certo século — percebeu que seu corpo não envelhecia mais.

Mas também não rejuvenescia.

Ficava, digamos, deslocado, como um móvel fora do lugar do tempo.

Seu rosto tinha rugas que iam e voltavam, como marés indecisas.

Seus cabelos embranqueciam quando pensava no amanhã, e escureciam quando esquecia o passado.

Decidiu então testar o tempo.

Sentou-se imóvel na poltrona.

— Agora você passa — disse ao tempo. Esperou. Nada.

Levantou-se e começou a andar pela casa, cada passo atravessando dias,

cada respiração criando décadas.

— Agora você para — ordenou. Mas o tempo, insolente, continuou não obedecendo.

Foi então que percebeu: o tempo não passava por ele.

Ele é que passava por diferentes versões de si mesmo.

Abriu uma porta. Encontrou-se jovem, escrevendo algo que nunca terminaria.

Abriu outra.

Viu-se criança, chorando por um motivo que ainda não existia.

Abriu outra.

Estava morto, mas pensando.

Resolveu então sair de casa.

Na rua, as pessoas caminhavam em direções incompatíveis: uma mulher envelhecia ao contrário, um homem nascia no meio da calçada, um cachorro lembrava do futuro com nostalgia, e todos olhavam para ele como se ele fosse o único fora de lugar.

Um menino aproximou-se.

— Senhor, que horas são?

O velho hesitou. Olhou para o pulso.

Não havia relógio. Havia uma pequena janela.

E dentro dela, ele mesmo, mais velho, respondendo à mesma pergunta: — Ainda não.

O menino sorriu e desapareceu antes de existir.

Desesperado, o velho decidiu parar definitivamente.

Sentou-se no chão da rua.

Fechou os olhos.

— Se eu não me mover, o tempo passa — pensou.

Mas ao fechar os olhos, viu tudo: todos os seus dias simultâneos, todos os seus erros ainda por cometer, todos os seus amores já perdidos antes de acontecerem.

O tempo não passou, explodiu.

Quando abriu os olhos novamente, estava no ventre de sua mãe.

Mas consciente.

Tentou gritar.

Saiu um sussurro de velho:— Já vivi demais.

Nasceu.

E no exato instante em que chorou pela primeira vez, um idoso, em uma poltrona distante, fechou os olhos pela última vez com um leve sorriso de reconhecimento.

E ninguém percebeu que eram o mesmo momento.

E, talvez, o mesmo homem tentando, inutilmente, descobrir de onde vinha aquilo que chamavam de tempo.

 

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.
www.tortoro.com.br
[email protected]

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS