OXUM DO PARDO

“Vá à pesca e não traga nada de lá. Só sonhos!!!!”

 

Roderick
No Candomblé, Oxum é generosa e digna.
Oxum é a rainha de todos os rios e cachoeiras.
Vaidosa, é a mais importante entre as mulheres da cidade, a Ialodê. É a dona da fecundidade das mulheres, a dona do grande poder feminino.
Oxum é a deusa mais bela e mais sensual do Candoblé, é a própria vaidade, dengosa e formosa, paciente e bondosa, mãe que amamenta e ama.
Ari Yéyé ó !
Nos finais de semana, quando se aproxima o inverno, e o sol de verão se esquece da piscina, Lu Degobbi se torna , para mim, a Oxum da beira do  Pardo.
Vaidosa, não consegue ir para a beira do rio sem antes botar abaixo alguns pares de calças, blusas, sapatos e botas, experimentar cada um deles, olhar-se  incansavelmente no espelho, ajeitar o cabelo, colocar brincos e colares e tudo mais a que tem direito: enfim, passa por um processo de produção visual.
Na noite anterior já preparou, com seu fiel companheiro de pesca, meu filho Rodrigo, a massa especial para pescar curimbas — 2 colheres de manteiga, 2 xícaras de farinha de trigo, 1 xícara de leite e 1 de açúcar mascavo, cozinhar em fogo brando, abrindo a massa para que fique cozida por dentro — suas carretilhas, varas de pescar, caixa de ferramentas — com alicate de bico, tesoura, linhas, anzóis, chumbadas  — cesto para manter os peixes dentro do rio, cesto para alçar os peixes maiores, ração especial de farelo de arroz com farelo de milho para cevar o local escolhido.
Logo que chegamos ao Clube de Regatas, vou buscar um cafezinho quente para três, adoçado pelo sorriso da Antonieta, enquanto Rodrigo e ela cuidam — envolvidos pelo desejo de apanhar pelo menos meia dúzia de curimbas,  — de todo o aparato que deverá levar ao sucesso mais um dia de pescaria: preparam linhas , anzóis e chumbadas, buscam  as mesas de apoio e as cadeiras, amarram varas e carretilhas na amurada de cimento ( para não serem levadas , de surpresa, por algum peixe muito grande) e preparam-se  para, no mínimo 8 horas, ficarem atentos a qualquer movimento, um mínimo tremor que seja da ponta afinadíssima da vara, que será seguido por uma brusca, rápida e firme tentativa de  fisgar algo: um mandi, um cascudo, um pequeno lambari , um cágado ou …um belo curimba, o sonho de consumo de cada uma das dezenas de pescadores que, a cada seis ou sete metros, tentam a sorte na beira do Pardo.
Postado a uns dois metros atrás de minha Oxum do Pardo e de seu fiel escudeiro, Digão, leio jornais, revistas e livros, muitos livros, e presto assessoria técnica: busco a caipirinha por volta das onze da manhã, recolho o peixe no cesto adequado, busco refrigerantes , salgados e sanduíches.
Nada pode interferir no ritual paciente e silencioso da pesca do curimba, nem mesmo a aproximação de amigos e conhecidos que querem sempre saber quais os segredos do sucesso da Lu,  na arte de São Pedro.
Segundo a mitologia amazônica, a presença da mulher na pescaria é sinônimo de azar devido a sua suposta impureza: não é o caso de Lu Degobbi, que só representa azar… para os peixes.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO

 

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