JACQUES LACAN E PROBLEMAS NA COMUNICAÇÃO
“Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou”
Jacques Lacan
No meu trabalho, em diálogos que tenho com pessoas diferentes, tomo sempre o cuidado com as palavras e a forma de tratar determinados assuntos, digamos, delicados.
A depender dos valores culturais — experiências pessoais, os afetos ou desafetos, e inclusive como estão se sentindo no momento — os nossos interlocutores confundem palavras e sentimentos.
Citando alguns exemplos.
Se eu digo à criança, diante da mãe, que ela aguarde sua vez de falar, que ela não pode ficar interrompendo a conversa de dois adultos. Logo a mãe interpreta, diante de suas vivências, que eu disse, explicitamente, “cala a boca”.
Se eu digo à mãe que seu filho, a continuar com as mesmas atitudes no ambiente escolar, correrá o risco de sofrer alguma agressão, mais uma vez, diante de suas vivências, afirmará que eu disse que seu filho “poderá levar porradas”.
Em ambos os casos, ambas as expressões não fazem parte do meu vocabulário de Orientador Educacional.
É comum também, diante de argumentos inquestionáveis, que as pessoas dizem concordar com o que está sendo dito mas, “não concordam com o jeito que as verdades foram ditas”.
Viver é difícil.
Conversar é muito mais difícil…e perigoso, quando temos como tarefa diária conversar com jovens e crianças. A diferença de cultura e idade, entre as pessoas, nesse caso, levam a conclusões inimagináveis. Após uma longa conversa, realizadas com as melhores intenções, só Deus sabe o que será interpretado no dia seguinte.
Com relação a tudo o que foi dito, vejam o que diz a Psicóloga, Adriana Ribeiro:
“Cada pessoa interpreta o que escuta e vê partindo de si mesma, sua interpretação de um fato ou de uma situação é uma verdade para si.
Quando conversamos com outra pessoa colocamos em palavras o que pensamos ou o que sentimos sobre algo, de acordo com nossas interpretações.
Por mais que estejamos conscientes do que falamos e de como falamos, não há como ter certeza que a pessoa que estamos nos comunicando compreenderá o que estamos a dizer, pois nossas palavras são interpretadas de acordo com os referenciais dela.
Quando vemos ou escutamos algo, tiramos uma opinião de acordo com a nossa percepção, nossos valores culturais, nossas experiências pessoais, os afetos ou desafetos, e inclusive como estamos nos sentindo no momento.
Para fazer um comentário, transformamos nossas percepções internas em palavras, usando o nosso vocabulário, termos e maneiras pessoais de nos expressar, que serão interpretadas pela outra pessoa.
A pessoa que nos escuta interpreta o que dizemos de seu modo particular, de acordo com suas condições perceptivas. Nem sempre somos compreendidos quando conversamos com pessoas com diferentes experiências de vida ou diferentes referências culturais, do mesmo modo que nem sempre as compreendemos.
Qualquer pessoa pode ser interpretada como boa ou má, correta ou equivocada, isso depende do modo como cada um interpreta o que vê ou escuta. A maneira como entendemos as coisas que estão fora de nós tem relação com as experiências que vivemos dentro de nós “.
Então, vida que segue, com todos os riscos que viver representa para um educador/professor.