ARTIGO: DEMISSÃO SEM JUSTA CAUSA – UM GOLPE EMOCIONAL DEVASTADOR

 

DEMISSÃO SEM JUSTA CAUSA: UM GOLPE EMOCIONAL DEVASTADOR

 

 

Vossa excelência desperta em mim os instintos mais primitivos”

 

Roberto Jeferson

A frase em epígrafe foi dita por Roberto Jefferson, advogado e deputado federal (PTB-RJ), em 02/08/2005, referindo-se ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, então deputado federal, durante processo de cassação do mandato do petista na Câmara dos Deputados.

Em vinte de dezembro de 1994, após doze anos, fui demitido sem justa causa, simplesmente por ser Maçon.

A manhã daquele fatídico dia, mesmo decorridos trinta anos, ainda desperta em mim sentimentos que reabrem as cicatrizes de uma ferida.

Hoje de manhã, li a seguinte notícia:

“Uma briga, durante a confraternização de Natal, terminou com a morte de empresário, esfaqueado por um funcionário, após um desentendimento entre os dois. De acordo com a PM, antes do crime, o funcionário foi informado pelo patrão, que seria dispensado da empresa, por ser “funcionário muito caro”: ele era o mais antigo da empresa.

Na notícia, o caso ocorreu após a confraternização, e do lado de fora, na portaria social. A empresa disse não haver explicação lógica para o o corrido, pois o infrator e vítima eram amigos, e o infrator estava evoluindo significativamente, inclusive, mudou de galpão (foi promovido) há pouco mais de um mês.

Durante a conversa dos dois envolvidos, o patrão teria dito que a confraternização seria o último evento do funcionário como parte da equipe, o que gerou revolta nele. Então, o funcionário quebrou no chão uma garrafa de vinho que havia recebido como presente do patrão. O patrão advertiu o funcionário pelo ato, e exigiu que ele limpasse o chão e trancou o portão da empresa, impedindo que ele fosse embora. Em meio à discussão, o empresário foi atrás do ex-funcionário, que, então, pegou uma faca e o atingiu mortalmente com três golpes”.

Somente aqueles, que como eu, já passaram por situação parecida, sabem os sentimentos que tomam conta da pessoa demitida.

A demissão inesperada, especialmente no final do ano, é um golpe emocional devastador. Para alguém que dedicou anos de trabalho à empresa, a sensação inicial é de choque e incredulidade. Como pode algo assim acontecer, ainda mais sem justa causa e vindo de alguém em quem se confiava? A traição parece pessoal, intensificando a dor.

O fato de a demissão ser justificada apenas pelo custo transforma o indivíduo, antes valorizado, em uma simples linha no orçamento. Surge um sentimento profundo de desvalorização, como se todo o esforço e os sacrifícios fossem ignorados. Isso é agravado pela forma desrespeitosa com que a demissão é conduzida. Não há diálogo honesto, não há empatia — apenas um ato frio, que desconsidera a humanidade de quem está do outro lado.

Nesse momento, a raiva e a tristeza se misturam: raiva pela falta de reconhecimento e pela maneira como tudo aconteceu; tristeza por ver um ciclo tão significativo terminar de forma tão abrupta e desumana. Há também o medo do futuro. O final do ano, que deveria ser uma época de celebração, é tomado pela incerteza financeira e emocional. As promessas de estabilidade se desfazem, e o chão parece sumir sob os pés: eis a “explicação lógica” para se cometer um assassinato, após vermos despertados, de forma irracional,

os instintos mais primitivos na alma da fera acuada e sem saída, que não consegue pensar, racionalmente, que essa dor também pode carregar um germe de transformação.

Após o luto inicial, pode surgir uma força inesperada, uma vontade de recomeçar e provar o próprio valor em um lugar onde ele seja genuinamente reconhecido. Mas até lá, é essencial permitir-se sentir, processar e curar as feridas abertas por essa experiência.

Estou tentando curar a ferida, mas as cicatrizes se abrem a cada dia vinte de dezembro.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO

Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras

www.tortoro.com.br

ancartor@yahoo.com

 

 

 

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