O VENDEDOR DE ESTRELAS
Hoje, ao passar por um cruzamento de duas ruas movimentadas de minha Ribeirão Preto — cidade tantas vezes chamada de Capital da Cultura — deparei-me com uma cena que permaneceu gravada em mim como ferro em brasa.
Na calçada, entre o fluxo apressado dos carros e a indiferença costumeira da pressa urbana, estava um homem idoso. Barba branca, chapéu negro na cabeça, semblante silencioso. Em seu pescoço, um cartaz simples anunciava: VENDO LIVROS DE MINHA AUTORIA.
A frase, tão direta, continha um universo.
Não vi apenas um vendedor. Vi um autor expondo ao vento páginas nascidas talvez de madrugadas insones, de memórias antigas, de dores amadurecidas em palavras, de sonhos que recusaram morrer. Vi alguém oferecendo ao mundo não um objeto qualquer, mas fragmentos de si mesmo.
A cena doeu fundo em mim.
Por um instante, coloquei-me em seu lugar. Imaginei-me ali, de pé na esquina, tentando vender meus poemas a pessoas encerradas em seus veículos, cercadas por buzinas, relógios e compromissos, sem suspeitar do que significa para um escritor vender sua própria obra. Porque vender um livro, para quem escreve de verdade, nunca é apenas vender papel. É entregar silêncio transformado em linguagem. É oferecer sangue convertido em tinta. É negociar, por necessidade, aquilo que nasceu para ser partilha.
Senti, então, gratidão.
Agradeci ao Senhor pela possibilidade de divulgar meus poemas pela internet, no abrigo do meu lar, alcançando leitores sem precisar submeter minha arte ao asfalto e à pressa. Agradeci também pelo encontro com parceiros que ajudaram a valorizar minha obra por meio da música e da imagem, ampliando horizontes que antes talvez me fossem inalcançáveis.
Mas a gratidão não apagou a imagem.
Ela continua impressa em minha alma.
Há algo profundamente simbólico naquele homem parado numa encruzilhada. A palavra encruzilhada carrega em si a cruz, o peso, a escolha, o destino. E ali estava ele, entre ruas que se cruzam, tentando trocar poemas por um pedaço de pão. Dois alimentos: um para o corpo, outro para a alma.
Qual deles era mais urgente?
Talvez o pão, porque a fome é imediata.
Talvez o poema, porque há fomes que duram a vida inteira.
Resta uma pergunta delicada: seria aquela cena apenas triste? Ou haveria nela também dignidade e alegria?
Talvez aquele homem não estivesse humilhado, mas orgulhoso. Talvez não mendigasse atenção: proclamasse existência. Talvez dissesse ao mundo, com seu cartaz singelo: “Eu escrevi. Eu existo. Minha voz merece circular entre vocês.”
Se assim for, a esquina deixa de ser cenário de derrota e se transforma em palco.
Que os deuses da arte — ou simplesmente a compaixão humana — tenham misericórdia desse poeta da calçada. E que algum motorista, ao parar no sinal, compreenda que às vezes um livro adquirido numa esquina vale mais do que muitos luxos comprados em vitrines.
Porque há homens que vendem mercadorias.
E há homens que, para sobreviver, precisam vender estrelas.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
