MINICONTO: VINAGRETE IMORTAL

 

VINAGRETE IMORTAL

 

Todo último sábado de cada mês, um grupo de amigos se reunia para o tradicional churrasco. Era uma instituição informal, mais sólida que muitos governos e mais duradoura que alguns casamentos.

Cada participante tinha sua função. Um levava a carne, outro as bebidas, outro o carvão.

E havia Augusto, o homem do vinagrete.

Ninguém sabia exatamente como aquilo começou. Talvez porque, numa distante tarde de verão, ele tivesse preparado um vinagrete memorável. Talvez porque tenha chegado primeiro a um churrasco trazendo apenas uma tigela de tomates e cebolas. O fato é que, ao longo dos anos, Augusto tornou-se inseparável do vinagrete.

Mas, naquele último sábado de maio, algo estranho aconteceu.

Na sexta-feira, Augusto telefonou para um amigo:

— Passe lá em casa amanhã cedo. O vinagrete estará pronto. Leve-o para o churrasco.

— E você?

— Não vou poder ir.

— Está doente?

— Não sei.

A resposta foi tão enigmática que provocou risadas.

No sábado, o amigo passou pela casa, encontrou o recipiente cuidadosamente guardado na geladeira e levou-o ao encontro.

O vinagrete estava perfeito.

Os amigos comentaram a ausência, criaram teorias, inventaram romances secretos, conspirações internacionais e até um possível sequestro por extraterrestres vegetarianos.

Dias depois veio a notícia.

Augusto falecera em decorrência de complicações de uma diverticulite.

O grupo ficou em silêncio. Pela primeira vez, o churrasco perdeu um de seus pilares.

Chegou junho.

Os convites circularam. A carne foi comprada. O carvão foi separado. As bebidas foram resfriadas.

Mas uma dúvida pairava no ar:

Haverá vinagrete?

No sábado, ao abrirem a geladeira do salão de festas, encontraram uma tigela já pronta.

Ninguém a havia levado. Ninguém a reconheceu. Ninguém ousou provar.

Até que um dos amigos mergulhou a colher e declarou:

— É o vinagrete do Augusto.

Todos concordaram.

Desde então, em todo último sábado do mês, uma tigela de vinagrete aparece misteriosamente no churrasco.

Os tomates nunca estragam. As cebolas jamais perdem a crocância.

E, segundo alguns relatos, em noites de lua cheia, é possível ouvir uma voz distante sussurrando entre as brasas:

— Menos sal desta vez…

O mais estranho, porém, aconteceu recentemente.

O grupo decidiu não realizar o churrasco. Ainda assim, o vinagrete apareceu.

Sozinho. Na sala vazia…

Com a sua superfície refletindo imagens da televisão, no meio de cebolas, pimentões e tomates picados.

 

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA, SOCIAIS

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