POEMAS MATEMÁTICOS E SENSUAIS: UMA CONTRADIÇÃO OU UMA REVELAÇÃO?
Quando um amigo ouviu o título do meu livro, “Poemas Matemáticos e Sensuais”, sua reação foi imediata: disse que a expressão lhe soava contraditória. De certa forma, compreendi sua estranheza.
Para muitas pessoas, a Matemática habita o reino da razão, da lógica e da exatidão, enquanto a sensualidade parece pertencer ao universo das emoções, dos sentidos e dos sentimentos. Em uma visão superficial, seriam mundos opostos.
Mas não para mim.
Talvez porque minha vida tenha sido construída exatamente sobre essa aparente contradição. Sou poeta, mas também sou professor de Matemática. Durante décadas, foi a Matemática que sustentou minha existência, permitiu meu trabalho, minha independência, minha família e meus sonhos. Tudo o que conquistei materialmente teve origem nas aulas que ministrei ao longo da vida.
Por isso, não consigo enxergar a Matemática como algo frio ou distante. Pelo contrário. Vejo nela uma das mais belas expressões da vida.
Sempre me encantei especialmente pelo Cálculo Diferencial e Integral. Há uma poesia silenciosa na ideia de que pequenas variações podem explicar grandes transformações. Há beleza na derivada que revela a velocidade das mudanças e na integral que reúne infinitos fragmentos para formar um todo. Não são apenas conceitos matemáticos; são metáforas da própria existência humana.
A Matemática está em toda parte.
Ela está nas órbitas dos planetas, no crescimento das árvores, no voo dos pássaros e no ritmo das marés. Está na arquitetura, na pintura, na fotografia e na literatura. Está, sobretudo, na música.
Hoje, ao criar canções com o auxílio da Inteligência Artificial, especialmente por meio do Suno, percebo ainda mais claramente essa presença. As notas musicais obedecem a relações numéricas precisas. Os intervalos, os acordes, os compassos e as harmonias possuem fundamentos matemáticos profundos. E, no entanto, quando a música toca nossos ouvidos, não sentimos números. Sentimos emoção.
A Matemática desaparece para revelar a beleza.
Ou talvez a beleza seja justamente a Matemática em sua forma mais refinada.
É por isso que o adjetivo “sensuais” ao lado de “matemáticos” não me causa estranhamento. A sensualidade não se limita ao corpo. Ela também está no prazer dos sentidos, na contemplação do belo, no encantamento diante de uma ideia elegante, de uma solução inesperada ou de uma melodia perfeita.
Existe sensualidade no conhecimento. Existe sensualidade na descoberta. Existe sensualidade na harmonia.
Quando um matemático contempla uma demonstração brilhante, experimenta algo muito próximo do que um artista sente diante de uma obra-prima. Há fascínio, arrebatamento e prazer intelectual. Há emoção.
Talvez o erro esteja em imaginar que razão e sensibilidade sejam inimigas. Minha experiência de vida me ensinou justamente o contrário. Quanto mais compreendi a Matemática, mais aprendi a admirar a beleza do mundo. Quanto mais me aproximei da poesia, mais percebi as estruturas invisíveis que organizam a realidade.
A Matemática e a poesia não se excluem.
A Matemática e a sensualidade não se anulam.
Todas elas nascem do mesmo lugar: da capacidade humana de perceber padrões, criar significados e maravilhar-se diante do mistério da existência.
Por isso, para mim, “Poemas Matemáticos e Sensuais” não é uma contradição.
É uma declaração de amor.
Amor à Matemática. Amor à poesia. Amor à vida.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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