ARTIGO: A MELHOR CASA DO MUNDO

 

A MELHOR CASA DO MUNDO

“Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entra nela não
Porque na casa não tinha chão…”

                                                          VINÍCIUS DE MORAES

 

Na realidade, no final dos anos cinqüenta, não era nem casa, era um sonho.
Um sonho sonhado a três: um operário, uma dona de casa e eu, uma criança de menos de 10 anos.
Em torno de uma mesa de cozinha, numa casinha da rua Olavo Bilac, 342, os planos giravam em torno de uma possível moradia com teto, com chão e tudo o mais: sala, 2 quartos, cozinha, banheiro dentro de casa e um quintal, além de um jardim: um luxo para o poder econômico da família daquele funcionário, Claudio Tórtoro, da Diederichsen,:.
Terezinha, ao lado do esposo, fazia economia há muitos anos, sem nada adquirir que não fosse o básico. Eu, o filho do casal, estudava no 1º.  Grupo Escolar Guimarães Júnior, oitava série do Ginasial, hoje 9º. ano do Ensino Fundamental.
O terreno já havia sido adquirido — em suaves, mas sofridas  prestações — no Jardim Paulista, do seu proprietário e amigo do meu pai, Heitor Rigon, conhecido empresário do ramo de móveis, naquela época.
Depois de muitas noites mal dormidas, e temores rondando a decisão, foram contratados dois exímios profissionais, pedreiros: Pedro e Artur.
O terreno — coberto por um matagal, sem nenhuma casa por perto, e nivelado a uma altura de um metro acima do nível da rua — começou a ser preparado.
Abertas as valas para construção dos alicerces, meu pai se orgulhava que os mesmos teriam uma base “agulhada”, com pedaços de pedras socados a força, antes que o concreto fosse despejado sobre elas: “suportaria um sobrado de dois andares”, dizia ele.
Durante a construção, eu freqüentava as aulas no período da manhã, e, todas as tardes, ficava acompanhando o trabalho do “Seu” Arthur, e aprendendo muito com ele: hoje, faço diversos trabalhos de pedreiro, pintor, encanador, eletricista, graças ao que aprendi naqueles dias inesquecíveis; e com meu pai.
A construção, enfim, foi finalizada em 1959, e nos mudamos para lá em 1960, ano de fundação de Brasília, quando então já havia nascido minha irmã, Rita. Costumávamos dizer que ela havia trazido sorte, e era sinal de novos tempos para nossa família.
Naquele lar, cresci e me tornei um homem: primeiras namoradas, finais de semana vendo os filmes no cine Cairo, idas de madrugada ao Tiro de Guerra, encontro com Lucia, minha luz e meu amor eterno, primeiro trabalho no Banco Bandeirantes, empresa de tratores e peças, Lion S.A. , cursos na Faculdade Barão de Mauá, aulas noturnas, já como professor, no Instituto Metodista: tudo, e o tempo todo, tendo como porto seguro aquela casa da rua Cesário Mota , 308, de onde só saí para me casar, em 1976.
Mas, por volta de meados do ano dois mil, a casa deixou de ser engraçada, e envolvida por sonhos de um futuro sem maiores dificuldades: meus pais envelheceram, passaram dos oitenta anos, e aquele lar se transformou, de repente,  num abrigo de dois idosos.
Suportamos, Rita e eu, todos os percalços dessa dura fase: não queríamos retirá-los da casa que foi deles por mais de quarenta anos, e que guardava nossas histórias de tempos bons, apesar de não tão fáceis: meus pais sempre trabalharam muito para manterem a união familiar em níveis dignos e respeitáveis.
Mas chegou a hora mais difícil de minha vida: levá-los para uma Casa de Repouso devido haver ficado a situação insustentável, dado os riscos que corriam por não terem mais condições de se cuidarem, e nem permitirem nossa participação na vida deles: queriam ficar sozinhos, mas não tinham mais condições de fazê-lo.
Desmontar a casa, para ser alugada,  foi dolorido demais: dói até hoje.
Hoje, 27 de junho de 2022, vendi minha metade da casa para meu cunhado: já não tenho mais cabeça para pensar em manter um imóvel que exige preocupação com manutenção e negociações anuais com inquilinos.
Mesmo a residência ficando em família, foi difícil: como uma massa visguenta, tudo que vivi naquele local me une aquelas paredes cinqüentenárias.
Para mim, o dia da assinatura do contrato de venda, no Banco Santander, da avenida 9 de julho, 1105, passará a ser um dia inesquecível, em que perdi parte fundamental da minha história na melhor casa do mundo…porque era a minha casa.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
ancartor@yahoo.com
www.tortoro.com.br

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