PREFÁCIO DO MEU LIVRO DE POEMAS “ÁGUA VIVA”

 

SIMPLICIDADE POÉTICA QUE CANTA E ENCANTA

“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.” (Lispector, in A Hora da Estrela)

O escritor, professor e educador Antonio Carlos Tórtoro, que ora nos presenteia com esta coletânea de poemas Água Viva,  é autor de várias outras obras como Estrelas no Mar, Ecos, Edelweiss, Mosaico e de Repercutindo Educação, sendo este último trabalho uma coletânea de crônicas-ensaio que revelam seu pensamento como educador e orientador de jovens estudantes do nível médio. Criador, autor e mantenedor do site https://tortoro.com.br/blog, ele continua discutindo os mais variados temas abordando literatura, impressões de leituras diversas, sinopses de livros, educação, fotografia e arte em geral. É autor dos poemas que acompanham as fotografias dos volumes I, II,  III, IV e V da série O Passado Manda Lembranças do Grupo Amigos de Fotografia de Ribeirão Preto. Membro de  academias de letras e artes, entre elas titular da Cadeira 24 da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras, da qual foi seu presidente durante vários mandatos. Há mais de 50 anos nas lidas da desafiante educação brasileira, nas últimas décadas tem atuado como Orientador Educacional em tradicional Instituto de Educação em Ribeirão Preto.

Com a pequena amostra acima, percebe-se que o autor de Água Viva não é estreante, motivo pelo qual o leitor vai encontrar aqui um texto enxuto, seguro e vigoroso, e um escritor dono de si no exercício da escrita poética. Este é um livro de apenas 39 poemas curtos, de leitura rápida e agradável, mas não pense o leitor que, por isso, cai na superficialidade; são poemas provocantes, instigantes, com estrutura profunda de significado, em que pese a simplicidade aparente de muitos deles. Simplicidade é bem uma de suas marcas. Lá nos idos de 1992, quando da publicação de Edelweiss, o poeta já dizia, no poema Leitura, que escreve “como se fosse mágica / para ler o que fui / o que sou / e o que serei…”. Esse exercício ontológico de compreensão da vida, da realidade e seus mistérios continua em Água Viva.

Esta coletânea, com pertinência, traz vários temas ligados ao mar, de forma muito sensorial, como o frio ou o quente das águas sobre a pele, a areia nos pés, o sol drapejando e refletindo na superfície em movimento, a luz marcando o contorno da serra, a tardinha caindo no horizonte, as gaivotas em ruidoso revoar, a saída ou a entrada nas águas, a imensidão do horizonte, a alegria da chegada e a melancolia da despedida, tudo registrado por palavras como se fossem estas um clic de fotografia para perenizar cada sentimento único, singular, na eternização do momento.

A água-viva, aquela “gelatina” que conhecemos é um animal. Sim, a água-viva é um animal! Mas que traz características muito próprias, inusitadas para quem não as conhece: não tem cérebro, não tem coração, não tem sangue e nem ossos, é quase transparente, de uma translucidez composta de 95% a 98% de água e o restante – os 2% a 5% – de mistério que o poeta transforma em metáfora (ou seria melhor alegoria?) rica de significados. Luz e mistério que vamos encontrar na leitura de sua poesia.

No primeiro poema que dá título à coletânea, o poeta afirma que a água-viva “é bola de cristal, / é gota de silicone, / é um instante de hesitação / entre o queimar-se ou não. / (…) / é vidro vivo / é energia natural cativa, / é um momento de indagação / entre estar viva ou não. / (…) / é apogeu de decisão / entre torná-la água-morta ou não.”  Entre ser uma coisa e outra, o poeta sugere – sim, a boa poesia é sugestão, leitor – que a dança da água-viva,  o seu fluxo e refluxo, o seu ir e vir de acordo com a corrente marítima, com o avanço e recuo das marés, assemelham-se a uma grande alegoria da vida a nos conduzir para lá e para cá, a reger um grande balé, a manipular a nossa pequenez envolta por forças maiores por nós incontroláveis, incompreensíveis e misteriosas.  A água-viva é um animal que, vivo ou morto, continua a nos queimar, assim como os vivos e os mortos – mais estes que aqueles – continuam a nos governar. E o tema da vida e da morte está presente na poética de Água Viva como o balé delas, das águas-vivas!

Somos nós águas-vivas – sem cérebro, coração, sangue e ossos – na imensidão do Grande Mistério?

Mas nem só de água-viva é feita a poesia de Tórtoro. Sem querer nos valer de trocadilhos, outros temas se espraiam pela sua poética. Ele é um exímio criador de imagens e comparações, como no poema Agora, em que mostra a lua distraída e esquecida de despedir-se da aurora ou teimosa e insistente na antecipação à noite que ainda não caiu. Com tal imagem o poeta a compara com a vida que também se distrai e teima frente à morte e “atira-se suicida / para o nada do céu afora / e perde a hora / única de ser vivida: / que é agora”.

A sensualidade discreta e a entrega também se encontram, com delicadeza e precisão, presentes em muitos de seus poemas, a exemplo de Amores, quando afirma que “O amor tem que ser sério / quente / bonito / cheio de mistério / e infinito” e continua dizendo que “…tem que ter esfrega / bem brega / com flores / jantares / cartões melados de beijos / e desejos todos satisfeitos.” Esta sensualidade é própria da Natureza, como no belo poema Esponsais em que a flor de maracujá, em compasso de espera, fecunda-se com a dança da abelha: “Num único minuto / página capitular de um gênese / composto em versos de abelha social / no ato puramente erótico de dançar”.

A efemeridade, a transitoriedade, o carpe diem, a beleza do momento, assim como a perenização do belo e do poético são temas recorrentes em sua poesia. Por exemplo, a Árvore de Natal desmontada é um forte símbolo de passagem e fechamento de ciclo (ou seria de início?), como no poema Ataúde de Natal: “Primeiro o ponteiro dourado / o último a ser colocado / num ritual anual e fantástico. / (…) / Por fim, um caixote / os brilhos, fios, luzes / que compuseram por dias / os momentos mágicos / de sonho, esperanças e alegrias / de um símbolo místico tradicional: / Uma Árvore de Natal!”. O efêmero, como um instantâneo de fotografia, também captado em muitos outros poemas como em Belisco: “Belisco um pedaço / da porção de calabresa e surpresa… / Vislumbro a solidão no gesto. / (…) / Entorpecido / suspendo o próximo gesto no ar / (…) / a passar desapercebido, como a vida.” Ou mesmo “Entre um clic clac / a transitoriedade cruel da vida / (…) / após o mesmo clic clac / a eternidade no papel incutida.” (Clic Clac).

O leitor vai deparar-se com a poesia aguda do autor, a tratar de razão e fé (Buscando), da grandeza da vida e natureza e a pequenez do bicho-homem (Companheiro), da beleza amorosa no gesto da partilha (Emaús), do paradoxo entre o que somos e o parecemos ser (Encenação), da solidariedade (Encontrado), da beleza plástica do mar (Espada), da purificação (Fogo), da poesia natural de corpo e de gestos (Formas de Amar), das lições retiradas das tragédias humanas (Kokura), da fé e da poesia (Louvor), dos ritos de mudança e de passagem (Objeto e Passagem do Mar), dos ciclos da vida (Paineira, Pegadas na Areia e Selos). Uma riqueza de temas tratados com rigorosa consciência do fazer poético, através de poemas curtos e sintéticos, de leitura ágil e agradável como já registrado acima.

Sobre o estilo e a linguagem do poeta, há que se registrar o rigor da forma, a simetria e o ritmo dos versos em poemas que mostram a maturidade do escritor, a exemplo de Órfão, Pavio, Ressonante, Rio e Sempre, este último um primor de construção poética.

Para encerrar, essa é uma nota à parte desta coletânea de poemas: o poeta Tórtoro, não se contentando com o poder poético de suas palavras apenas escritas, tem-se reinventado e ousado colocar sua poesia em palavras cantadas, com belíssimas imagens e vídeos ilustrando seus textos, buscando novas ferramentas para divulgar seu trabalho e encantar leitores-ouvintes. Uma inciativa louvável que amplia a visibilidade de seu trabalho.

Assim como a água-viva, em meio à escuridão, brilha com sua química e translucidez e empresta sua beleza ao mar, seja na superfície, seja nas profundezas, o leitor, ao fazer uma leitura atenta, um mergulho na estrutura profunda dos versos incisivos do poeta, vai descobrir a beleza que brota da simplicidade aparente de seus versos.

Boa leitura!

 

WALDOMIRO W. PEIXOTO

Membro da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTES, ARTIGOS, LITERATURA