LI E GOSTEI: MULHERES E HOMENS DIAMANTES – DE LUZIA MADALENA GRANATO

 

MULHERES E HOMENS DIAMANTES

O prefácio da obra Mulheres e Homens Diamantes, da Profa. Dra. Conceição Lima, estabelece com clareza o eixo central do livro: a valorização da simplicidade da vida cotidiana como espaço de profunda experiência humana.

Vou tomar a liberdade de analisar o todo, pela parte: analisando o conto Amor Dionisíaco, já que conheço a obra de Luzia.

Ao evocar Alberto Caeiro, com sua poética do essencial (“ouvir passar o vento”), a prefaciadora indica que a obra não busca o extraordinário, mas o sentido escondido no comum.

Esse princípio se realiza de forma exemplar no conto “Amor Dionisíaco”.

Pois vejamos:

A simplicidade como veículo de profundidade.

No prefácio, afirma-se que não há “tragédia de abalar o universo”, mas sim “estórias simples de vida”.

O conto confirma exatamente isso: não há grandes acontecimentos externos — o enredo é mínimo —, mas há uma intensa movimentação interior.

O relacionamento entre a mulher (dionisíaca) e o homem (apolíneo) não é narrado por fatos, mas por estados emocionais: encanto inicial, frustração, distanciamento, tentativa de resgate, reencontro consigo mesma.

A simplicidade formal esconde uma complexidade psicológica, exatamente como antecipa o prefácio.

O viés psicológico vai da dependência à autonomia.

O prefácio destaca que o “viés psicológico da obra é notável”, conduzindo os personagens à chamada “inteligência emocional”.

No conto, isso aparece de maneira muito clara: a mulher começa em um estado de projeção afetiva: acredita no homem que ele “parecia ser”.

O homem, apolíneo (racional, rígido, frio), revela-se emocionalmente imaturo.

O relacionamento gera dor — “o fogo virou gelo”.

O ponto central não é o fracasso amoroso, mas o processo de amadurecimento da mulher.

No final, ocorre a virada: “volta a si, a se amar sem desertos”.

Aqui se realiza exatamente o que o prefácio propõe: o personagem elabora sua vida pessoal e alcança um nível de libertação emocional.

O simbolismo: Apolíneo x Dionisíaco.

O conto dialoga com uma tradição filosófica profunda (especialmente em Nietzsche):

Apolíneo:  ordem, razão, rigidez, aparência.

Dionisíaco: emoção, vida, entrega, intensidade

A mulher é “primavera”, “canto”, “vida”. O homem é “estátua de mármore”.

O conflito entre os dois não é apenas amoroso — é existencial:

vida x estagnação, calor x frieza, autenticidade x aparência.

No entanto, o desfecho não busca a união dos opostos, mas a reintegração do eu: ela não precisa mais do outro para existir.

A “lição de vida” (conexão direta com o prefácio).

O prefácio afirma que cada conto oferece uma “lição de vida”.

A lição de “Amor Dionisíaco” pode ser sintetizada assim: amar o outro não pode significar perder-se de si mesmo.

A verdadeira plenitude nasce quando o indivíduo se reconcilia com sua própria essência.

O símbolo final é extremamente significativo:

Sol: consciência, clareza, identidade.

Água que sacia a sede: realização interior, paz emocional.

Ou seja, a personagem não encontra a felicidade no outro, mas em si.

O humanismo da obra:

O prefácio insiste em uma visão otimista:  “o ser humano é viável, pode ser resgatado”.

O conto confirma essa esperança, mas com nuance: o homem não muda, quem se transforma é a mulher.

A salvação não vem da relação, mas do autoconhecimento.

Isso torna a obra profundamente contemporânea: não idealiza o amor romântico, mas propõe um amor consciente.

Enfim, o prefácio funciona como uma chave de leitura, e “Amor Dionisíaco” é uma de suas melhores concretizações.

A narrativa demonstra que: a simplicidade pode conter grande profundidade, o amor pode ser caminho de dor, mas também de transformação, a verdadeira conquista é interior.

E, em perfeita sintonia com o verso de Caeiro citado no prefácio, tanto a obra, como o conto sugerem que vale a pena viver — não pelos outros, mas pela descoberta de si mesmo.

 

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.
www.tortoro.com.br
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