TÓRTORO: UM ANIVERSÁRIO SURREAL DE RIBEIRÃO PRETO

 

UM ANIVERSÁRIO SURREAL DE RIBEIRÃO PRETO
(Artigo publicado no jornal “O Diário” em junho de 2005)

 

 

O local, no Quadrilátero Paulista, só poderia ser aquele para a realização de uma comemoração do aniversário de tão ilustre personagem.

À mesa principal da Choperia Pinguim, Dr Rubem Cione aguardava, tranquilamente, os convidados, vendo, através da janela, o monumento ao Soldado Constitucionalista.

O calor reinante naquele fim de tarde, era característico da cidade, mesmo não sendo verão.

Sobre a mesa, ainda intocado, um copo de chope servido pelo Zuelli, e um exemplar do livro “História de Ribeirão Preto, volume V”.

O ilustre historiador ribeirãopretano trazia, mentalmente diante de si o cenário principal de uma história de 149 anos: a Praça XV de Novembro (Largo da Matriz), a Praça das Bandeiras (da República) , a Praça Tiradentes (  Largo das Dores) , a Biblioteca Altino Arantes, o Palace Hotel, o prédio Umuarama, a Arca, as primeiras ruas: Da Esperança (Visconde do Rio Branco), Nossa Senhora das Dores ( Mariana Junqueira) , Do Comércio ( Visconde de Inhaúma), Do Bonfim (General Osório), Do Botafogo ( Saldanha Marinho), São Sebastião , Quatro de Junho (Duque de Caxias),  Da Alegria (Amador Bueno), Da Boa Vista ( Álvares Cabral),  Das Flores ( (Tibiriça), Municipal ( Américo Brasiliense), Da Lage ( Barão do Amazonas), o Ribeirão do Retiro e o Preto, o Barracão, a Vila Tibério e a porteira dos trilhos da Mogiana, o Museu do Café.

Suas lembranças foram interrompidas pela chegada ruidosa dos Coronéis, Reis do Café, Lunardeli, Pereira Barreto, Francisco Schimidt, acompanhado de Dona Iria Diniz Junqueira, Pedro Biagi e Henrique Dumont, que iam se cumprimentando enquanto acendiam charutos com notas de mil réis. Vinham acompanhados pelos organizadores da Agrishow 2005, e mostravam-se entusiasmados com o progresso do agronegócio na região em que, antes deles, só existiam os índios Caiapós e o vale do Rio Pardo.

A primeira pergunta que fizeram ao anfitrião era onde  se encontrava Cassoulet, e se as apresentação daquela noite seriam as mesmas da “Belle Épóque”, no  Cassino Antarctica e no Eldorado Paulista, com muitas francesas e polacas, champanhe, roleta, etc.

Dr Rubem não teve nem tempo de responder, sendo interrompido pelos latidos do cão boêmio e filósofo, Fuzarca, anunciando, da rua, a presença de Sinhá Junqueira e do Padre Euclides Carneiro, que conversavam com o amigo de ambos, Antônio Diederichsen.

Passados os momentos dos primeiros cumprimentos, o assunto passou a ser o desenvolvimento da cidade e o papel desempenhado nele pela Associação Comercial e Industrial, a construção do Asilo e da Catedral Metropolitana, a fundação do Antigo Banco Construtor e da Sociedade Legião Brasileira Civismo e Cultura, e as conseqüências terríveis que atingiram a cidade durante a febre amarela e a Revolução de 32.

Uma certa agitação chama a atenção de todos para a entrada principal do recinto, na chegada do Quinzinho, acompanhado de Idalina e seu noivo Dorival, do fotógrafo Motta, de Américo e Cacheta, de Serrote, de Etelvina, de Floriano Marmelada, proprietário de um Box no Mercado Municipal, e do escritor Prisco da Cruz Prates: eles compõem uma nova mesa, e o assunto passou a ser a visita do Rei Alberto I, da Bélgica, que quis conhecer os shoppings da cidade, a realização de um Come-fogo, quis saber sobre a criação dos primeiros blocos e escolas de samba, os sucessos da equipe COC no basquete nacional e a travessia do Canal da Mancha por Abílio Couto.

Um burburinho começa a tomar conta do ambiente. Cada grupo que chegava para as comemorações, era como que um novo instrumento acrescentado a um  Bolero de Ravel, composto somente por vozes, vozes que ecoavam no presente um futuro promissor.

A mesa reservada a educadores e, principalmente, aos “Lentes” do “Estadão” , ainda permanecia vazia, mas, brevemente,  viria a ser ocupada por Oscar Lacerda, Domingos Spinelli, Eletro Bonini, Otoniel Mota, Veiga Miranda, Zeferino Vaz, e outros, e, com certeza, o assunto seria a atual situação da Educação na cidade, a criação da Faculdade de Medicina no Campus da USP e da ARE- Academia Ribeirão-pretana de Educação.

Logo, como não poderia ser diferente, chegaram os representantes da imprensa: Romano Barreto e José da Silva Lisboa, acompanhados por Orestes Lopes de Camargo, que se sentou à mesa com um grupo de jornalistas da mídia local. Machado Sant’Anna, do vespertino  A Tarde, e Sebastião Porto, haviam chegado sem serem notados pelos demais, dada a animação da festa, e estavam estupefatos diante do potencial daquelas câmaras de televisão e das imagens refletidas num telão especialmente colocado ali para maior conforto dos convidados.

O som da música “Pé de Anjo”, interpretada pelo Choro Quadrado e de “Carinhoso”, pela gaita de Nadim Hanna, já era intenso quando Pedro Miranda conseguiu entrar, acompanhado por membros das academias de letras, artes, ciências e educação, discutindo a conveniência ou não, da criação de uma Universidade Aberta em Ribeirão Preto, e a participação delas na Feira Nacional do Livro. Na mesa ao lado estavam o Arcebispo Dom Alberto José Gonçalves e o pintor Benedito Calixto, que o acompanhava, ambos só de passagem pelo local.

O Dr Fábio Barreto conversava com Plínio Travassos e comentavam sobre a importância da criação de museus, e o papel fundamental do Bosque Municipal, das Sete Capelas, do Cristo do Morro de São Bento, do Teatro de Arena, do Jardim Japonês, da Cava do Bosque e do Parque Curupira, para incentivo ao turismo na cidade.

Do lado de fora, o Teatro Carlos Gomes anunciava a apresentação da ópera “O Guarani”, ao lado de um cartaz de “Guerra nas Estrelas III. No Theatro Pedro II, apresentava-se a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto.  No Teatro Municipal, realizava-se um  Festival de Danças. No MARP e no MIS, exposições de artistas plásticos e fotógrafos (na Bienal Nacional de Fotografia)  apresentavam à população trabalhos de artistas locais e nacionais.

Da Câmara Municipal chegava a notícia, pela Rádio PRA-7, que havia sido aprovada uma verba de um conto de réis para auxiliar na construção do 14-Bis, e que marronzinhos já não poderiam mais multar troles e automóveis. Enquanto que, no Jornal Nacional, era anunciado,  para apreensão de todos, a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque, e a derrocada dos Barões do Café.

Mas, aquela noite era só de festas. Era chegada a hora de apagarem velinhas, cantar parabéns e cortar o bolo.

Todos cantaram  o Hino a Ribeirão Preto, acompanhados ao piano por Diva Tarlá, autora da música, tendo ao seu lado Saulo Ramos, de pé, com um  copo de chope na mão, e a sua letra na ponta da língua.

A noite invadiu a madrugada, os ecos de sons que compuseram uma imortal história, ecoavam pela esplanada já quase vazia, sendo ouvido até no Palácio Rio Branco.

Nos pontos de baladas, nos restaurantes, nas casas de show, na Nove de Julho, na Treze de Maio e na Presidente Vargas, a vida continuava efervescente de juventude e sede de progresso, na antiga Vila de São Sebastião do Ribeirão Preto.

Dr Rubem Cione sorria, satisfeito, dever cumprido, enquanto Ribeirão Preto, a Capital do Café, da Cultura, da Cana-de-açúcar e do Agronegócio, partia rumo ao seu Sesquicentenário no ano de 2006.

Sorria com ele, Ribeirão Preto, branco, vermelho, amarelo, enfim, de todos as cores e raças que construíram  e se propuseram a continuar construindo sua história de terra hospitaleira, generosa, onde dá para se viver a vida inteira, cravar bandeira, plantar o coração, criar raízes e família, desde 1856.

 

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO

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