ARTIGO: LION, CATERPILLAR E EU

 

LION, CATERPILLAR E EU

 

Fui admitido na Lion S.A., filial Ribeirão Preto, em 29 de julho de 1969, para ser auxiliar no escritório da oficina: eu tinha 20 anos, e comecei separando peças velhas de tratores Caterpillar.

Como sempre fiz mais do que eu era contratado para fazer, após duas promoções, para setores diferentes da empresa, em menos de um ano fui levado à seção de peças.

Em 1969 eu já utilizava um terminal de computador para consultar estoques de peças, em todas as filiais do Brasil, a fim de melhor, e de forma mais rápida, atender aos pedidos de clientes que não podiam ficar com suas poderosas máquinas paradas.

A sensação de pertencimento a um momento em que as atividades fervilhavam em todo o país, é indescritível.

No final da década de 1960, a empresa Lion S.A. implementou um sistema de comunicação por meio de terminais de computador conectados por linhas dedicadas, permitindo a consulta remota do estoque de peças da Caterpillar entre suas filiais e a sede em São Paulo. Esse sistema foi um dos primeiros exemplos de informatização no Brasil voltado para a gestão de estoques e logística.

A tecnologia da época era bastante limitada, e a maioria das empresas ainda utilizava métodos manuais para controle de inventário. No entanto, a Lion S.A. inovou ao estabelecer um sistema que permitia a consulta de disponibilidade de peças em tempo real, reduzindo atrasos e otimizando a gestão de suprimentos.

A Caterpillar iniciou suas operações no Brasil em 1954, e em 1960 inaugurou sua primeira fábrica no país. Durante esse período, a demanda por máquinas pesadas cresceu significativamente, exigindo um controle eficiente de peças de reposição. O sistema da Lion S.A. foi crucial para atender a essa demanda de forma ágil e eficaz.

Embora a informatização de empresas estivesse apenas começando no Brasil, a Lion S.A. demonstrou pioneirismo ao investir em tecnologia para melhorar seus processos operacionais. Esse tipo de sistema foi precursor dos modernos ERPs (Enterprise Resource Planning), que hoje são amplamente utilizados para a gestão integrada de estoques, logística e vendas.

Nas prateleiras da seção de peças, encontrávamos cartões perfurados, por meio dos quais os computadores “liam” as informações sobre as mercadorias: furo era lido como digito 1, sem furo era lido como dígito zero: era o sistema binário em ação, a serviço da informatização.

Os cartões perfurados foram um dos primeiros meios de entrada de dados e programação usados em computadores. Eles surgiram no século XIX, inicialmente para controlar teares mecânicos e, depois, foram adotados no processamento de dados por Herman Hollerith para tabulação do censo dos EUA em 1890.

No contexto dos computadores, os cartões perfurados se tornaram amplamente utilizados a partir da década de 1940 até os anos 1970. Cada cartão era feito de papel rígido e possuía uma série de colunas e linhas onde buracos eram perfurados para representar informações em código binário. Máquinas específicas liam os cartões e os processavam, permitindo a execução de programas ou armazenamento de dados.

Os cartões perfurados foram usados em computadores como o IBM 1401 e o UNIVAC. Programadores escreviam seus códigos em papel, e operadores usavam perfuradoras para criar os cartões. Se houvesse um erro, o cartão precisava ser refeito. Essa tecnologia foi substituída gradualmente por fitas magnéticas e discos rígidos, que eram mais eficientes e permitiam edição sem necessidade de refazer toda a entrada de dados.

Fiquei na Lion até dezembro de 1973, quando fui dispensado por não aceitar ser transferido para a filial de Itaipu, onde teriam início as obras da construção da famosa hidrelétrica: não aceitei porque eu ganhava mais dando aulas de Matemática, em escolas particulares, à noite, do que o salário que me foi oferecido.

Mas sinto orgulho de ter feito parte do início dessa história do uso da tecnologia avançada, para a época, em Ribeirão Preto.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
ancartor@yahoo.com

 

 

 

 

 

 

 

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