ARTIGO: QUEBRANDO A CABEÇA

 

QUEBRANDO A CABEÇA

 

Sabemos que quebra-cabeças são altamente benéficos para idosos, tanto do ponto de vista cognitivo quanto emocional.

Observando minha esposa montando um quebra-cabeças em seu celular, veio-me à mente a seguinte reflexão.

Viver é como montar um imenso quebra-cabeça.

Desde o nascimento, começamos a juntar as primeiras peças: os pais, os irmãos, os cheiros, os sons, os primeiros medos e alegrias.

Com o tempo, vamos organizando as bordas, tentando dar contorno ao que somos. A infância nos dá cores vivas, a juventude traz as peças da ousadia e dos sonhos, e a vida adulta completa parte do cenário com trabalho, amores, filhos, amizades, conquistas e frustrações.

Até os 60 anos, estamos focados em montar esse grande quadro: encaixamos experiências, lembranças, relações, escolhas.

Cada peça tem seu lugar, mesmo aquelas que nos machucam — porque também fazem parte do todo. Mas, passado esse marco, algo sutil e poderoso começa a acontecer: iniciamos o processo inverso: a montagem dá lugar à desmontagem.

A cada amigo que parte, a cada história que se apaga da memória, a cada limitação do corpo que surge com a idade, retiramos uma peça.

Às vezes, a peça cai de repente — um infarto, um acidente, uma doença cruel. Outras vezes, ela some devagar, como a lucidez que se esvai ou o afastamento silencioso de quem já foi tão próximo.

A imagem vai se desfazendo lentamente.

Não é um processo triste, necessariamente. É um retorno.

À medida que o quebra-cabeça se desfaz, voltamos às nossas origens. Nos tornamos mais simples, mais sensíveis, mais próximos do essencial. Como crianças, voltamos a contemplar as pequenas coisas: o cheiro do café, o calor do sol, o som da chuva.

O quadro volta a ser branco — não por vazio, mas por completo. Um branco pleno de histórias vividas, de afetos guardados no coração e de silêncios que agora dizem mais do que mil palavras.

Ao fim, a vida é isso: um quebra-cabeça que montamos com esforço e desmontamos com sabedoria. E se restar apenas uma peça, que seja o amor que deixamos nos outros.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
ancartor@yahoo.com

 

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