UM LEITE…QUE NADA TEM DE LEITE.
“Não é todo dia que aparece uma força assim na literatura brasileira”
Marcelino Freire
Adquiri, para a biblioteca do Clube de Regatas, um exemplar do livro “Leite em pó”, de Marina Filizola, atendendo ao pedido de uma frequentadora assídua daquele espaço cultural.
Li na orelha, escrita por Marcelino Freire, que: “Neste livro de crônicas, o leitor vai se deparar com a prosa e a poesia ácida e sem filtro da estreante Marina Filizola”.
Achei que o livro seria mais indicado para jovens adolescentes mas, logo nas primeiras linhas, notei que eu estava diante de uma escritora jovem, com um palavreado que eu desconhecia, e, digamos, topetuda, pois vejamos: “Me disseram que aqui eu podia falar a verdade. Minha funilaria esta recauchutada. Peça original, sobrou nenhuma. Queimei a largada. Depois de noventa dias encarcerada numa clínica de reabilitação sagada, que cheirava a cinzeiro molhado — em algum lugar que eu não tinha ideia de onde era, porque cheguei atada-dopada-desmaidada na ambulância-cárcere do aterrorizante Samu —,com o objetivo humilde de me reinserir na sociedade….” e por aí vai.
Isso sem mencionar os títulos incomuns das crônicas: “A removedora de merdas” , “Caviar com cocaína” , “Qué um pega?” , “Um foda-se bem colocado” , “Fédemenos” , e outros menos chocantes… para um sexagenário acostumado com literatura mais, digamos, selecionada.
Mas alguns capítulos me prenderam pelo senso de humor da escritora — principalmente nas crônicas em que ela faz referência ao filho Logan (como em “Mãe- polvo” e “Aceita que dói menos” ) — apesar da dura realidade de quem luta contra a dependência química, incurável, mas controlável.
Isso posto, tomo a liberdade de publicar, na íntegra, um texto de Eduardo Minc, que encontrei no odia.ig.com.br:, a fim de meu leitor conhecer melhor essa “figura” chamada Marina Filizola:
“O livro ‘Leite em Pó’ (Editora Planeta, 222 págs. R$ 29,90), da paulista Marina Filizola — no qual a autora com sua trajetória no submundo das drogas e as dores do seu passado : “cheguei à beira da esquizofrenia” — acaba de ser lançado e já se tornou leitura obrigatória da literatura marginal no estilo ‘Eu, Christiane F.’. Modelo, trapezista, atriz da minissérie ‘Amazônia’, musa do reality ‘Hipertensão’, ambas da Globo, atleta de alta performance e a ‘Garota Internética’, da Band, ela conta na obra, em formato de crônicas, sua passagem pelo mundo das drogas.
“Eu liguei uma roleta-russa. Cheguei à beira da esquizofrenia e vi muita gente morrer”, lembra Marina. Hoje, aos 35 anos, ela enche a boca pra dizer que está há três anos, cinco meses, 10 dias e pouco mais de 24 horas limpa, depois que começou a frequentar os Narcóticos Anônimos (N.A.), jogando tudo para o alto em troca de sua sobrevivência. “Até os traficantes me evitavam, achando que eu era chave de cadeia. Eu mergulhei fundo no que as pessoas chamam de submundo, mas dei sorte”, analisa.
Marina saiu de casa aos 17 anos, mas já fumava maconha na escola aos 14, na época do handebol, no recreio com os amiguinhos, e fez de tudo um pouco na vida, afundando-se cada vez mais em todo tipo de drogas pesadas que lhe foram apresentadas. Quando estava no auge de seu ofício de atriz e aparições no show business viu de tudo. “Velho, a droga está em todo lugar. Nas festas, nas produções ou nas igrejas. Eu vi todo tipo de gente famosa se drogar pesado, mas não vou dizer os nomes.”
O clique para deixar esse mundo veio com Chico, um inseparável Golden Retriever. “Foi um momento impactante quando Chico passou a não comer e vomitar. Ouvi de um veterinário que ele estava imitando o meu comportamento padrão”, lembra. Esse foi um dos motivos que a levaram a procurar ajuda.
Marina sabe que tem uma predisposição genética incurável, mas percebeu a tempo que tinha que se tratar. “Eu estava no isolamento total, virada há 12 dias. Aí peguei meu carro, usei mais droga, larguei, peguei a bike e fui até o Narcóticos Anônimos. Hoje, aquela toalhinha azul do N.A. é a imagem da salvação pra mim (referindo-se a um símbolo do grupo).
Mesmo com cenários de caos e dor presentes em toda essa trajetória, Marina não se arrepende de nada. “Só do que não fiz. Me aprofundei em tudo e me arrisquei. Errei, mas os erros fizeram eu me tornar uma pessoa mais bacana. A gente tem que cair muito pra aprender. É o caminho.”
Depois que começou o tratamento também com terapias, Marina está mais centrada. Ela lançou seu livro de crônicas “escrito enquanto estava louca e lúcida”, e pretende continuar escrevendo”.
É isso, uma leitura féla…féladaputa, e que surpreende.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
ancxartor@yahoo.com
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