LI E GOSTEI: O MENINO NO ALTO DA MONTANHA

A MONTANHA DE DANTE.

“A montanha pode ser associada ao outro mundo, ao mundo inferior, ou ao purgatório, como na Divina Comédia de Dante”.

Li, em dois dias, a convite de minha amiga e diretora do Colégio Anchieta, Profa. Alcilene Soares Aguiar, uma narrativa impactante sobre as tentações do poder, a vulnerabilidade da juventude e a dor terrível de uma vida repleta de arrependimentos, segundo o The Guardian.
Perrot poderia ser comparado a um de nossos jovens que hoje estão sujeitos a doutrinações ideológicas sem controle legal, em algumas de nossas salas de aula Brasil afora.
Perrot ou Pieter, personagem principal de O menino no alto da montanha, é filho de um alemão e de uma francesa que fica órfão e vai morar com sua tia Beatrix, governanta em Berghof, no Obersalzberg, residência de Adolf Hitler, personagem real que dispensa apresentação.
Sua transformação ocorre no alto de uma das montanhas dos Alpes bávaros, numa mansão na Alemanha, perto da divisa com a Áustria, entre 1936 e 1945: num cenário que precedeu a Segunda Guerra Mundial, um mundo repleto de perigos, medo, segredos e traições em que o ódio aos judeus era cada vez maior, o nazismo se torna a ideologia dominante e os franceses não são perdoados pelas perdas impostas aos alemães pelo Tratado de Versalhes.
Montanha deveria ser sempre a morada dos deuses, um Monte Olimpo, mas no caso da obra de John Boyne, o deus é de barro e a montanha é a da Divina Comédia, de Dante.
Sabemos que, simbolicamente, uma montanha deveria ser escalada, ascensão física, em busca da ascensão espiritual ou mística da consciência: mas justamente o contrário ocorreu com nosso menino ao se transformar em um membro da Juventude Hitlerista e se ver em contato com “deuses” terríveis: líderes da Gestapo, da Schutzstaffel e da Wehrmacht — Göring, Himmler, Goebbles e Heyfrich.
Até então uma vítima constante de bullyng, enquanto vivia em Paris, Pierrot vê na autoridade recém-adquirida uma possibilidade de inverter o jogo, e se torna Pieter, justificando suas novas atitudes baseado nas palavras de Simone, do orfanato em Órleans, a respeito de um jovem chamado Jacques: “Era um doce de menino, tão cheio de vida, tão divertido. Um modelo de bondade. Mas, depois, quando voltou (da guerra) para casa…Bom, ele estava mudado. E fez algumas coisas terríveis. Mas tinha servido seu país com honra”, a mesma firmação da irmã de Ernst, ao final da guerra, mesmo sabendo que Pierrot havia sido o responsável pela morte de seu irmão — motorista que tentou matar Hitler envenenado e foi fuzilado por esse motivo— “Você fez o que qualquer patriota teria feito”, ela escreveu.
Nem a amizade da jovem Katarina, colega de escola, nem as lembranças do amigo judeu, Anshel, e do cão D’Artagnan, que ficaram em Paris, impediram que Pierrot se transformasse em Pieter, uma criança corrompida pelo poder.
Nas palavras da criada Herta Theissen uma afirmação que sempre nos fazemos quando pensamos nos alemães que viveram na época de Hitler:
— Não finja ( Pieter) que não sabia o que estava acontecendo. Você tem olhos, tem orelhas. Você ouviu tudo. Viu tudo. Sabia de tudo. E sabe também das coisas pelas quais foi responsável. Jamais convença a si mesmo de que não sabia…seria o pior crime de todos.
Enfim, O menino no alto da montanha — do mesmo autor de O menino do pijama listrado, ambos publicados pela Companhia das Letras, um escritor cujas obras já foram traduzidas para mais de 45 idiomas — deixa marcas e margem para reflexões sobre as atitudes dos seres humanos em situações de risco.

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
ancartor@yahoo.com
www.tortoro.com.br

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